Urutu Branco




22/12/2007 00:34

O Pai para o Filho em face do Cristo

Para refletir nesse Natal:

“O Pai para o Filho em face do Cristo”

Geir Campos

“Não direi maravilhas
Para que não duvides.
Antes direi:
Era uma vez...
...um Homem
Capaz de muito amar,
Inclusive mulher.
E que de amor
Tentou falar
A uns bárbaros.
E como esses não
O entenderam,
O que tinha a dizer
Traçou em fábulas,
Ainda hoje
Não de todo debulhadas.
Então, como ainda
Não o entendessem,
Serviu-lhes sua carne
e seu sangue numa cruz.
E assim,
Passou por Deus na Terra,
Um Homem,
Desses que passam
Tentando mudar a estrada."

enviada por Arlindo



02/12/2007 17:36

Carta ao Povo do Nordeste 30-11-2007

Queridos Irmãos e Irmãs Nordestinos, do Ceará, do Rio Grande do Norte, da Paraíba e do Pernambuco,

Paz e Bem!

Quando encerrei o jejum de 11 dias em Cabrobó, há dois anos atrás, acreditei sinceramente que o governo federal cumpriria sua palavra empenhada no acordo que assinamos. Este acordo estabelecia um amplo, transparente e participativo debate nacional sobre o desenvolvimento do Semi-árido e da Bacia do São Francisco. Acreditávamos piamente que se esse debate fosse verdadeiro seriam esclarecidas as reais necessidades e potencialidades do Semi-árido, e ficaria evidente que a transposição não era necessária nem conveniente ao povo nem ao rio. As águas abundantes do semi-árido falariam por si. E os projetos alternativos existentes se imporiam, como as obras do Atlas Nordeste para o meio urbano e as experiências da ASA – Articulação do Semi-Árido para o meio rural.

O governo não cumpriu o prometido, abortou o debate apenas iniciado, ganhou as eleições e colocou o Exército para começar as obras da transposição. Movimentos e entidades da sociedade organizada intensificaram as mobilizações e os protestos, mas o governo se fez de surdo. Diante disso, não me restou outra alternativa senão retomar o jejum e oração, como havia dito que faria se o acordo não fosse cumprido. Para isso escolhi a capela de São Francisco, em Sobradinho – BA, bem próximo da barragem de Sobradinho, que há 30 anos passou a ser o coração artificial do Rio São Francisco, um doente em estado terminal.

Sei que meu gesto causará estranheza e incompreensões em muitos de vocês. Não os culpo por isso. Há gerações vem sido dito a vocês que só a grande obra da transposição “resolve” a seca. Entre os maiores interessados nela estão pessoas que vocês bem conhecem, pois são as mesmas que há muitos anos dominam e exploram a região usando o discurso da seca para desviar dinheiro público e ganhar eleições.

A seca não é um problema que se resolve com grandes obras. Foram construídos 70 mil açudes no Semi-árido, com capacidade para 36 bilhões de metros cúbicos de água. Faltam as adutoras e canais que levem essa água a quem precisa. Muitas dessas obras estão paradas, como a reforma agrária que não anda. Levar maiores ou menores porções do São Francisco vai tornar cara toda essa água existente e estabelecer a cobrança pela água bruta em todo o Nordeste. O povo, principalmente das cidades, é quem vai subsidiar os usos econômicos, como a irrigação de frutas nobres, criação de camarão e produção de aço, destinadas à exportação. Assim já acontece com a energia, que é mais barata para as empresas e bem mais cara para nós. Essa é a verdadeira finalidade da transposição, escondida de vocês. Os canais passariam longe dos sertões mais secos, em direção de onde já tem água.

Portanto, não estou contra o sagrado direito de vocês à água. Muito pelo contrário, estou colocando minha vida em risco para que esse direito não seja mais uma vez manipulado, chantageado e desrespeitado, como sempre foi. Luto por soluções verdadeiras para a vida plena do povo sertanejo – isso tem sido minha vida de 33 anos como padre e bispo do sertão. É, pois, um gesto de amor à vida, à justiça e à igualdade que nunca reinaram no Semi-árido, seja aí, seja aqui no São Francisco, longe ou perto do rio.

Agora mesmo é grande o sofrimento do povo não muito distante do rio e do lago de Sobradinho que, em função da energia para um desenvolvimento contra o povo, está com apenas 14%. Um projeto de R$13 milhões que resolveria o abastecimento dos quatro municípios da borda do lago espera desde 2001 pelo interesse dos governantes...

O São Francisco precisa urgentemente de cuidados, não de mais um uso ganancioso que se soma aos muitos que lhe foram impostos e o estão destruindo. Como lhes disse da outra vez, fosse a transposição solução real para as dificuldades de água de vocês, eu estaria na linha de frente da luta de vocês por ela.

O que precisamos, não só no Nordeste, é construir uma nova mentalidade a respeito da água, combater o desperdício, valorizar cada gota disponível, para que não ela não falte à reprodução da vida, não só a humana. Precisamos repensar o que estamos fazendo dos bens da terra, repensar os rumos do Brasil e do mundo. Ou estaremos condenados à destruição de nossa casa e à nossa própria extinção, contra o Projeto de Deus.

Senhor, Deus da Vida, ajude-nos! “Para que todos tenham vida!” (João 10,10).

Recebam meu abraço e minha benção,


Dom Luiz Flávio Cappio, Ofm.

Sobradinho - BA, 29 de novembro de 2007.

enviada por Arlindo



02/12/2007 09:37

“¿Por qué no te callas?” o la colonialidad del poder


Boaventura de Sousa Santos *

"¿Por qué no te callas?" Esta frase, pronunciada por el Rey de España dirigiéndose al presidente Hugo Chávez durante la XVII Cumbre Iberoamericana realizada en Chile el pasado 10 de noviembre, corre el riesgo de quedar en la historia de las relaciones internacionales como un símbolo cruelmente revelador de las cuentas por saldar entre las potencias ex colonizadoras y sus ex colonias.

De hecho, nadie se imagina a un jefe de Estado europeo dirigiéndose públicamente en esos términos a un par europeo, cualesquiera fuesen las razones del primero para reaccionar ante las consideraciones del último. Como cualquier frase que interviene en el presente a partir de una larga historia no resuelta, esta frase es reveladora en diferentes niveles.

En primer lugar, revela la dualidad de criterios para evaluar qué es o no democrático.

Está documentado el involucramiento del primer ministro de España de entonces, José María Aznar, en el golpe de Estado que en 2002 intentó derrocar a un presidente democráticamente electo, Hugo Chávez.

Como a esa altura España presidía la Unión Europea, esta última no puede siquiera clamar su total inocencia. Para Chávez, al actuar de esta forma, Aznar se comportó como un fascista. Podría llegar hasta a cuestionarse la adecuación de este epíteto. Pero, ¿no hay tantas razones para defender las credenciales democráticas de Aznar, como hizo patéticamente Zapatero, como para denunciar el carácter antidemocrático de su injerencia?

¿Se haría lugar a la misma vehemente defensa si un presidente electo de un país europeo colaborase en un golpe de Estado para deponer a otro presidente europeo electo?

La dualidad de criterios tiene aún otra vertiente: la valoración de los factores externos que interfieren en el desarrollo de los países. En los primeros discursos de la Cumbre, Zapatero criticó a aquellos que invocan factores externos para encubrir su incapacidad para desarrollar a los países. Era una alusión a Chávez y su crítica al imperialismo norteamericano.

Pueden criticarse los excesos de lenguaje de Chávez, pero no es posible hacer esta afirmación en Chile sin tener presente que allí, hace 34 años, un presidente democráticamente electo, Salvador Allende, fue depuesto y asesinado por un golpe de Estado orquestado por la CIA y Henry Kissinger. Tampoco es posible hacerlo sin tener presente que actualmente la CIA tiene en curso las mismas tácticas usando el mismo tipo de organizaciones de la "sociedad civil" para desestabilizar a la democracia venezolana.

Tanto Zapatero como el rey quedaron particularmente irritados por las críticas a las empresas multinacionales españolas (búsqueda desenfrenada de lucro e interferencia en la vida política de los países), realizadas en diferentes tonos por los presidentes de Venezuela, Nicaragua, Ecuador, Bolivia y Argentina. Es decir, los presidentes legítimos de las ex colonias fueron mandados a callar pero, de hecho, no se callaron.

Esta negación significa que estamos por entrar en un nuevo período histórico, un período poscolonial, teorizado, entre otros, por José Martí, Gandhi, Franz Fanon y Amílcar Cabral, y cuyas primicias políticas se deben a grandes líderes africanos como Kwame Nkrumah.

Será un período duradero que se caracterizará por una fuerte afirmación de los países que se liberaron del colonialismo europeo en la vida internacional y se basará en la recusación de las dominaciones neocoloniales que han persistido más allá del final del período colonial.

Esto explica por qué la frase del rey de España, destinada a aislar a Chávez, fue un tiro que salió por la culata. Por la misma razón se explican los sucesivos fracasos de la Unión Europea de aislar a Roberto Mugabe.

Pero, "¿por qué no te callas?" es todavía reveladora a otros niveles. Destaco tres.

Primero, la desorientación de la izquierda europea, simbolizada por la indignación hueca de Zapatero, incapaz de darle cualquier uso creíble a la palabra "socialismo" e intentando desacreditar a aquellos que lo hacen.

Puede cuestionarse al "socialismo del siglo XXI" –yo mismo tengo reservas y preocupaciones en relación con algunos desarrollos recientes en Venezuela–, pero la izquierda europea deberá tener la humildad para reaprender, con la ayuda de las izquierdas latinoamericanas, a pensar futuros poscapitalistas.

Segundo, la frase espontánea del rey de España, seguida del acto insolente de abandonar la sala, mostró que la monarquía española pertenece más al pasado de España que a su futuro.

Si, como escribió el editorialista de El País, el Rey desempeñó su papel, es precisamente este papel el que más y más españoles ponen en cuestión, al abogar por el fin de la monarquía, en definitiva una herencia impuesta por el franquismo.

Tercero, ¿dónde estuvieron Portugal y Brasil en esta Cumbre? Al mandar a callar a Chávez, el Rey habló en familia. ¿Brasil y Portugal son parte de ella?




* Boaventura de Sousa Santos es Doctor en Sociología del Derecho por la Universidad de Yale, EEUU, y catedrático de la Universidad de Coimbra, Portugal.

Extraído de
http://www.telesurtv.net/secciones/notasdeopinion/331/por-que-no-te-callas-o-la-colonialidad-del-poder/
enviada por Arlindo



28/11/2007 09:37

Quem construiu a Tebas de sete portas?


Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca da sua mão.
E o operário disse: não!

Vinícius de Moraes (trecho do poema "O operário em construção")


Hoje me recuso a ser pautada pela mídia gorda. Hoje quero dar um tempo nas leituras das Vejas e Épocas, não quero fazer referência a nada que vi na TV Globo, nem mesmo ao aberrante programa do Jô Soares em que ele vomita preconceitos raciais e de gênero ao comentar a vida sexual das mulheres angolanas. Hoje quero falar de um tipo de gente invisível para esses veículos de desinformação, mas que fazem verdadeiramente esse país no que ele tem de melhor. Tipo de gente que é a maioria do povo brasileiro.


Num bar popular em Fortaleza, ouvindo música brega e bebendo cerveja com amigos, conheci seu Benedito, Bené para os mais chegados. Única mulher no ambiente masculino, no meio de comentários sobre o resultado do jogo do Fortaleza e sobre o DVD pirata de um suposto filme pornô estrelado por Juliana Paes, puxei conversa com o senhor sorridente que bebia tranqüilamente sua cachacinha.


Seu Bené é negro. Seus 55 anos são somados a uma vida sofrida que lhe confere uma aparência de mais idade. Hoje seu Bené está desempregado. Como ele mesmo diz: “quem vai dar emprego para velho?”. Vive fazendo pequenos favores para a vizinhança, que em troca lhe dá comida e apoio. Sua moradia é a calçada do bar ou do Lava-jato em frente.


Quando jovem, seu Bené foi para o Sudeste, como tantos nordestinos, atraído pelas promessas do “milagre brasileiro” produzido pela ditadura civil-militar. “Milagre” que combinava crescimento econômico, superexploração da classe trabalhadora e repressão brutal. Uma das expressões do “milagre” foram as obras faraônicas, importantes para propagandear o Brasil grande e para levar a cifras astronômicas as verbas destinadas às empreiteiras que se locupletavam com dinheiro público. Seu Bené trabalhou em duas delas: a construção da Rodovia do Aço e a Ponte Rio-Niterói. Nesta última escapou da morte por pouco, pois faltou ao trabalho no dia em que um acidente levou a vida de oito companheiros de sua equipe.


Findo o “milagre” artificialmente produzido, depois de muitas dificuldades em arrumar emprego, resolveu voltar ao Ceará. Não tinha dinheiro para a passagem e foi literalmente a pé até Mossoró, Rio Grande do Norte, onde conseguiu sua primeira carona. Seu Bené buscava no seu estado natal o apoio de um tipo de solidariedade que, para os nordestinos, é raro de encontrar na cidade grande. “Em Fortaleza pelo menos não queimam índios nas ruas e ninguém me deixa passar necessidade”.


Seu Bené casou, mas disse que foi porque a mulher ficou grávida, pois, espírito aventureiro, não queria “se amarrar”. O casamento terminou, ficaram duas filhas que estão hoje “encaminhadas na vida”. A mais velha é enfermeira chefe de um hospital de Fortaleza e a segunda prestará vestibular este ano para Direito. Com lágrimas nos olhos, seu Bené disse que se afastou das meninas, pois se não tinha condições de ajudá-las, também não queria atrapalhar as suas vidas e se tornar um peso para a família.


Perguntei ao seu Bené se ele, que tanto tinha trabalhado, recebia aposentadoria e ele respondeu que não. Trabalhou sem carteira assinada boa parte de sua vida e agora tinha de esperar ter 60 anos para tentar uma aposentadoria por idade. Mas não tinha muita esperança de conseguir.


Chegada a hora de ir embora, seu Bené se despediu de mim dizendo que tinha gostado muito de conversar comigo. Elogiou meu português correto e disse que sentia falta de conversar com quem falava assim e podia compreender o contexto histórico de sua trajetória de vida, entendendo o seu sentido. Orgulhoso de sua formação, seu Bené volta e meia afirmava que tinha profissão. Esse mesmo trabalho que, organizado sob a lógica da expropriação capitalista, era fonte de sofrimento, também marcava uma identidade positiva enquanto atividade autocriadora.


Fui para casa pensando como as políticas de extermínio que hoje são assumidas oficialmente pelo governo do meu estado são, na verdade, a face mais explícita de um sistema que é cruel por natureza. O capitalismo é contra a vida humana, animaliza os seres humanos ao condená-los a trabalhar para garantir sua sobrevivência imediata e não para a sua autoemancipação. O brilho que encontrei nos olhos de seu Bené enquanto ele me narrava sua vida é expressão de potencialidade criativa, de energia transformadora, de desejo de felicidade e beleza. A força desse brilho vem da certeza de poder construir o mundo com suas próprias mãos. No entanto, seus limites são impostos por um modo de produção que torna o trabalho escravidão e fonte de sofrimento, estranho ao próprio trabalhador.


Gilmar Mauro, uma das lideranças mais importantes do MST, numa belíssima fala na I Conferência Vozes de Nossa América, realizada recentemente na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, contou sobre seus sentimentos contraditórios quando passava pela avenida Paulista. Se, por um lado, sentia um grande desespero ao ver naquelas construções a materialização da força do capital, por outro, se enchia de esperança ao perceber que tudo aquilo tinha sido erguido pela mão da classe trabalhadora. E, se a classe trabalhadora foi capaz de construir tudo aquilo, ela também seria capaz de por abaixo a ordem do capital e reconstruir um outro mundo, com base em valores humanos.


Pensei nisso, e também em Vinícius, em Brecht e no dia em que gente como seu Bené começar a dizer não.


Adriana Facina
(Observatório da Indústria Cultural/UFF)


Publicado originalmente em http://www.fazendomedia.com/, em 12/11/2007
enviada por Arlindo



27/11/2007 22:37

As oligarquias contra a democracia

Da Agência Carta Maior
http://www.cartamaior.com.br/templates/index.cfm?alterarHomeAtual=1


É uma lei de ferro da história: as oligarquias dominantes lutam sempre desesperadamente para não perder o poder que controlam, a ferro e fogo, há séculos. Quando o povo e as forças populares ameaçam esse poder, elas apelam para a violência. Primeiro apelavam diretamente à intervenção militar dos EUA, depois, às FFAA, formadas e coordenadas com os EUA. Agora seguem suas estratégias de violência e obstáculo aos processos de democratização no continente, onde quer que ele se dê, sob a forma que seja.

Essas ações violentas são parte da história do nosso continente. As mais recentes foram os golpes militares, que derrubaram governos eleitos legitimamente pelo povo, para substituí-los por ditaduras militares, demonstrando a tese enunciada acima: no Brasil, na Argentina, no Chile, no Uruguai, na Bolívia, a violência introduziu regimes de terror em todo o cone sul.

São partidos políticos, personagens da política tradicional, grandes empresas privadas, corporações empresariais, que apoiaram e tiveram gigantescos benefícios durante as ditaduras militares, que hoje encarnam a direita latino-americana, disfarçados de democratas, opondo-se aos novos avanços populares. São os mesmos que apoiaram as ditaduras, as intervenções norte-americanas, a violência contra o povo, que agora resistem à vontade democrática da maioria.

Eles estão perdendo em praticamente todas as eleições, quando o monopólio oligárquico da mídia não consegue convencer o povo de que seus interesses representam o país. Perdem na Argentina, no Brasil, no Equador, na Bolívia, na Venezuela. E aí apelam de novo para a violência e as tentativas de ruptura da democracia, quando esta não lhes serve mais, porque o povo passa a reconstruir democracias com alma social.

Órgãos de imprensa que promoveram os golpes militares, apoiaram as ditaduras e se beneficiaram com elas – na Argentina, no Brasil, na Bolívia -, que apoiaram tentativas de golpe – na Venezuela -, que pregaram os processos de privatização que dilapidaram os Estados latino-americanos – agora vestem roupas “democráticas” e pretendem brecar os processos de transformação em curso. Querem contrapor a violência e as ameaças aos movimentos populares que colocam em prática processos de nacionalização, de integração regional, de políticas sociais favoraveis às grandes maiorias da nossa população, sempre desconhecidas pelas oligarquias tradicionais, os direitos dos povos indígenas e negros, das mulheres, dos jovens, crianças e idosos, do meio ambiente, de democratização dos meios de comunicação.

A Bolívia, situada no coração do continente, concentra hoje as principais ações da direita oligárquica contra os processos de democratização que se desenvolvem na América Latina. As oligarquias brancas, que privatizaram os patrimônios fundamentais do Estado e do povo boliviano, que apoiaram regimes ditatoriais e participaram deles, que tentaram impedir, por séculos, que as grandes maiorias indígenas acedessem ao poder, que desenvolvem campanhas racistas sistemáticas de discriminação, tentam agora impedir que a vontade majoritária do povo boliviano realize, pela primeira vez na história desse país, as políticas de um governo dirigido por um líder indígena.

Apesar da campanha eleitoral racista – em que 92% das notícias foram contrárias a Evo Morales e com caráter racista, conforme atestou a comissão internacional de acompanhamento da cobertura de imprensa -, o povo boliviano – de que 64% se reconhece como indígena – elegeu, em dezembro de 2005, a Evo Morales, no primeiro turno, com a maior votação que um presidente boliviano já obteve.

A reação das oligarquias locais não se fez esperar, assim que o governo passou a cumprir sua plataforma de campanha, nacionalizando os recursos naturais, convocando a Assembléia Constituinte, desenvolvendo políticas de distribuição de renda, começando o processo de reforma agrária, avançando na integração latino-americana, reconhecendo os direitos dos povos indígenas. Embora derrotada na grande maioria dos estados, a direita boliviana, apoiada na estrutura de seus partidos tradicionais, conseguiu eleger 6 governadores, mesmo onde Evo Morales havia triunfado e, baseado neles, tenta promover a divisão do país. Ou ameaça com ela, para tentar manter o poder regional sobre a terra, os recursos naturais, os impostos sobre as exportações e o poder para continuar submetendo aos povos indígenas.

Com minoria na Assembleia Constituinte, a direita tenta desestabilizar o pais, mediante mobilizações violentas, com metralhadoras, pistolas, bombas molotov, querendo bloquear o direito soberano e majoritário do povo boliviano de decidir o carater multi-étnico, multi-nacional, da nova Cosntituição. Usam os mesmos métodos violentos de sempre, se valem da atuação da embaixada dos EUA e de governos europeus, que alentam a oposição, preocupados em defender as empresas transnacionais que sempre exploraram a Bolivia, em conluio com essas forças que agora se rebelam contra a vontade popular.

Perder o poder sobre a terra, sobre os recursos naturais, que passam às mãos do povo boliviano, democrático representado pelo governo de Evo Morales, além do reconhecimento dos direitos de autonomia dos povos indígenas – torna-se insuportável para uma oligarquia que acostumou-se à apropriação privada do país para realizar seus interesses particulares.

O povo boliviano se pronunciará sobre o projeto de nova Constituição, aprovado pela maioria dos delegados e dotará ao país, pela primeira vez na sua história, de uma estrutura política e jurídica democrática e pluralista. Conta com o apoio popular na Bolívia e com a solidariedade dos povos e governos democráticos da América Latina.

Emir Sader


enviada por Arlindo



17/11/2007 22:53

POR QUE HUGO CHÁVEZ INCOMODA TANTO AS ELITES?

Frei Gilvander Moreira (1)
Profa. Delze dos Santos Laureano(2) e
Prof. Dr. José Luiz Quadros(3)

As transformações sociais em curso na América Latina, especialmente na Venezuela, estão incomodando os diversos grupos que sempre tiveram privilégios insustentáveis. São os mesmos que se apropriam das riquezas naturais e impõem à população um modelo de “desenvolvimento” que degrada de forma irreversível o meio ambiente e provoca o esgarçamento do tecido social, fazendo da sociedade palco de violência sem precedentes.
O medo destes grupos se agrava com a possibilidade concreta de a Venezuela passar a integrar o Mercosul. Por isso, fomenta-se no Brasil um processo de satanização de Hugo Chávez e da Revolução bolivariana. A mídia, o quarto poder, através da Revista Veja, da TV Globo e Cia, procura, de forma orquestrada, macular o processo de libertação ora em curso na Venezuela e na Bolívia. Tenta impedir a construção de uma outra forma de organização política fora da “democracia” liberal hegemônica, esta que pretende ser a vitória do capitalismo sobre o socialismo real, pós-esfacelamento do leste europeu e que teve a pretensão de determinar o “fim da história”.
Estivemos em Caracas, na Venezuela, durante dez dias, no 6o Fórum Social Mundial. Mantemos comunicação com várias pessoas amigas de lá. Diante da enxurrada de calúnia que a mídia propala impiedosamente contra Hugo Chávez, cabe recordar várias coisas que estão acontecendo na Venezuela.
Um grande mutirão pela educação acabou com o analfabetismo naquele país. O povo controla e comercializa o petróleo, grande riqueza natural que agora serve para melhorar a vida das pessoas e não mais aumentar o lucro das multinacionais. O povo venezuelano está cheio de esperança. Uma juventude, em sua maioria esclarecida, está comprometida com a organização popular, com a construção de uma democracia verdadeiramente participativa.
As críticas internas a Hugo Chávez vêm dos canais de TV que estão nas mãos das elites e da minoria privilegiada. A população pobre é beneficiada com preços de 30 a 50% mais baixos do que nos mercados privados nos milhares de Mercados Populares - MERCAL - que alimentam a maioria da população.
Os estudantes que lideram os movimentos por “liberdade” são os de classe média alta, defensores dos ideais de liberdade como privilégio para poucos, mesmo quando o sistema que mantém essa chamada “liberdade” condena à miséria e à exclusão a maioria da população.
Na Venezuela bolivariana, todos os estudantes que cursam universidades públicas, ou que ganham bolsas de estudos, diferentemente do que acontece no Brasil, prestam serviço social à comunidade. Dão uma contrapartida para a sociedade em vista dos recursos públicos que recebem para estudar. Só na Universidade Bolivariana mais de 500 mil jovens pobres estão estudando.
O governo de Hugo Chávez apóia a instalação, regulamentação e funcionamento de rádios comunitárias. Não há burocracia para conseguir a documentação e o governo ajuda financeiramente na compra dos equipamentos para se fortalecer a comunicação alternativa e mais interativa. Assim, não procedem as alegações de que não há liberdade de imprensa na Venezuela. O governo venezuelano não tem o monopólio da informação. Contrariamente investe contra o monopólio dos meios de comunicação, como o que ocorre hoje no Brasil, onde poucas famílias controlam o sistema de informação de massa.
Na Venezuela, atualmente, existem mais de 20 mil médicos cubanos, que, com apenas uma ajuda de custo cerca um salário-mínimo, estão alavancando uma revolução no sistema público de saúde. São responsáveis pelo atendimento primário da população, algo parecido com o médico de família. Estão nas favelas e bairros pobres; lá vivem e atendem, com competência e dedicação, os pobres. "Por mais de 50 anos os médicos venezuelanos recém formados se recusaram a ir para o interior, para os bairros, para a periferia. Só queriam ficar na capital, ganhar dinheiro às custas da dor. Agora, com Chávez, eles tiveram sua chance de ajudar o povo. Não quiseram. Então foi preciso apelar para a solidariedade. Vieram os médicos de Cuba e estamos tendo acesso à saúde nos lugares mais distantes e pobres”, informa um jovem da periferia de Caracas.
Yojin Ramones, um venezuelano que vive no Brasil, referenda nossa percepção, revelando que na Venezuela há uma recuperação acelerada da atividade econômica, melhorando o poder aquisitivo de todos. Isso mesmo, de todos – os venezuelanos, ricos e pobres (antes eram apenas os ricos). O país tem anualmente o crescimento do PIB (Produto Interno bruto) mais elevado da América Latina, cerca de 10% nos últimos anos. Lá são convocados referendos sobre os temas mais importantes do país, de modo que o povo opine e escolha o que quiser. Os abusos dos bancos foram freados pelo governo. Por exemplo, a taxa de juro anual de um cartão de crédito é de 28% a.a. Aqui no Brasil é acima de 120% a.a.
Não há país da América latina que tenha feito tantas obras - como metrôs, pontes, teleférico, aeroportos - em apenas oito anos. Os serviços de saúde devolveram a vista a milhares de pessoas carentes de recursos, não só venezuelanos, mas latino-americanos. Pela primeira vez, muitos bairros pobres têm um médico para dar atenção às pessoas. A integração da América do Sul é prioridade para o fortalecimento de nossas raízes e forças latino-americanas.
Quanto à democracia é importante lembrar que o Hugo Chávez, assim como os partidos políticos que o apóiam, venceu todas as eleições que foram supervisionadas por organismos internacionais e políticos de todo o mundo, inclusive um ex-presidente norte-americano (JIMMY CARTER). Todos atestaram a lisura dos pleitos.
Importante acrescentar que as eleições ocorreram com a grande maioria dos meios de comunicação (jornais, rádios e TV) em franca campanha de difamação contra o governo de Hugo Chávez. Em qualquer parte do mundo, os responsáveis pelas emissoras de rádio e TV, teriam sua concessão cassada, e em alguns países seriam processados por calúnia e difamação, como, por exemplo, nos EUA e na França.
A reforma da Constituição, ora em curso, faz parte de um processo de mudança estrutural radical, que pode transformar a Venezuela em uma sociedade sem miséria, sem exploração e sem exploração, fundada na solidariedade e não na competição, no egoísmo e na ganância.
Para além dos mecanismos de democracia representativa, o povo da Venezuela tem mostrado uma grande capacidade de mobilização e participação, construindo uma democracia participativa que legitima as transformações em curso.
Nós devemos ficar sempre atentos para que o caminho democrático participativo construído na América latina hoje não seja desviado por projetos pessoais. Toda mudança só é legitima se construída democraticamente pelo povo.
Nesta esteira é que temos de defender aguerridamente os povos e os projetos transformadores de Cuba, Venezuela, Bolívia e Equador. Primeiro, porque sãos povos que estão em processo de libertação, lutam com destemor contra o imperialismo e a opressão capitalista neoliberal. Segundo, porque se estes países forem sufocados, teremos que viver mais tempo com os valores da indiferença pelo ser humano que hoje domina as sociedades e ameaça o planeta.


(1)Frei Gilvander Luís Moreira, mestre em Exegese Bíblica e assessor da CPT, CEBI, SAB e Via Campesina,
e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br

(2)Delze dos Santos Laureano, professora de Direito Constitucional e Direito Agrário, membro da RENAP – Rede Nacional de Advogados Populares
e-mail: delzesantos@hotmail.com

(3)Dr. José Luiz Quadros de Magalhães, professor de Direito Constitucional da UFMG,
e-mail: ceede@uol.com.br


Belo Horizonte, 14/11/2007.

Conheça o sítio do Frei Gilvander: http://www.gilvander.org
enviada por Arlindo



14/11/2007 00:41

A POLÊMICA DA VIOLÊNCIA



A violência está no ar das grandes cidades. E das pequenas, também. Um surto? Uma epidemia? Uma pandemia? Talvez. E, por isso, rende: reportagens, noticiários de televisão, artigos irados e indignados, depoimentos de vítimas, análises sociológicas, psicológicas, políticas e mais o que o diabo inventa.

Todo mundo fala, fala, e ninguém tem razão. Talvez, nem eu, quando resolvo meter minha colher nesse assunto. Mas, como cidadão, tenho, como todos os demais, direito à opinião.

Semana passada, um mauricinho da televisão, Luciano Huck, foi assaltado na Marginal, corredor mais do que movimentado, da cidade de São Paulo. Levaram-lhe o Rolex, depois de lhe encostarem um trabuco na cara. Motoqueiro.

Como é vip, teve tratamento vip da imprensa (leia-se: Folha de São Paulo), que publicou um artigo do moço, reclamando da falta de segurança, reclamando da violência, reclamando a presença, até, do famigerado comandante Nascimento, do filme Tropa de Elite, o hit do momento do cinema nacional. O tal major do filme é pelo dente por dente, olho por olho. E vingança pouca é bobagem.

Alguns dias depois, a mesma imprensa publicou um artigo de um rapper da periferia, o Ferréz, pseudônimo de Reginaldo Ferreira da Silva, também escritor. Nele, o moço tenta explicar o gesto do motoqueiro, falando da vida dura de um correria, eufemismo para assaltante de moto, vindo da periferia. É mais uma obra de ficção, mas contém uma visão do outro lado da moeda.

Estava armada a polêmica. Grosserias à parte, escreveu-se muita bobagem, atiçaram-se os ânimos e ambas as partes estão jogando muita merda no ventilador, ou melhor, uns na cara dos outros.
É o tipo de polêmica em que todo mundo grita, todo mundo xinga e acaba ninguém tendo razão nenhuma, porque a razão está longe de quem se intitula dono da verdade, ou está imbuído do preconceito mais profundo. E, no caso, há, sim, preconceito de ambas as partes.

Não sei se conseguirei levantar todos os argumentos para defender meu ponto de vista, que é complexo. Não sou dono da verdade, disse e repito. Por isso, tudo o que abaixo se segue tem apenas a finalidade de tentar (somente tentar) lançar uma nova visão, ou, quando muito, raciocinar sobre um tema cabeludo e tentar trazê-lo à razão e não à emoção.

Minha visão de homem vai um pouco além ou fica um pouco aquém de todas visões sociológicas, psicológicas e, principalmente, religiosas. A longa tradição do pensamento ocidental (e, acredito, grande parte do oriental, também) vê o homem como o anjo decaído, o que foi criado à imagem e semelhança de um deus. Esse pensamento contamina, por via da metafísica, todo a filosofia e toda tentativa de explicar o ser humano, seja qual for a ferramenta utilizada para isso.

O homem não é ser criado, nem anjo decaído. Traz em seus genes, em sua memória ancestral, toda a animalidade, toda a ferocidade, toda a luta pela sobrevivência que os milhões de anos da evolução da vida gravaram em sua mente, em seu corpo, em seu pensamento. Somos, sim, fruto dessa luta, árdua, sem tréguas, como caça e caçadores, como vítimas e como predadores. Não temos bondade nem maldade em nossos atos pregressos. Temos apenas a luta.

A evolução nos trouxe o pensamento lógico. O pensamento lógico permitiu-nos a comunicação, a mais complexa e determinante arte que o homem inventou, em todos os tempos. Através dela, nos civilizamos. Ou melhor, construímos pretensas civilizações. Mas não deixamos de ser o predador, porque sofisticamos nossos meios de sobrevivência. Temos um verniz civilizatório. Mas não somos civilizados.

Civilizar-se significa opor-se atrozmente contra nossos instintos vitais, de luta, de violência, de conquista. E não amamos uns aos outros: quando muito, aprendemos a nos respeitar. Porque não há amor na luta pela sobrevivência, nem ódio. Foram categorias que inventamos, quando criamos deuses, religiões e outras alegorias metafísicas, para explicar o que não entendíamos, para justificar o que não se podia justificar.

Se tomarmos a bíblia judaico-cristã, o mesmo deus do não matarás comete atrocidades terríveis ao longo das páginas desse livro. Exemplo? Sodoma e Gomorra. Cidades destruídas pela fúria desse deus. E basta ler poucas páginas, para encontrarmos recomendações de extinção do inimigo, a ferro e fogo, olho por olho, dente por dente.

Nem o Cristo, que pretensamente pregou o amor, escapa à ira, quando chicoteia os vendilhões do templo. Além disso, por mais filosófica e terna que seja considerada por muitos sua mensagem, no frigir dos ovos, é tão excludente, que só os que o seguem obterão o reino dos céus. O que leva a condenar ao inferno todos os demais. E o que é isso senão a suprema violência? (Eu sei que muitos me odiarão por isso. Paciência: dar a outra face é, mesmo, utopia).

Cultivamos a morte. Não a vida. Porque o deus que nós inventamos disse que esse mundo é apenas uma passagem. A verdadeira vida vem depois. E acreditamos nisso, como um truísmo. Nada, nem o fato de que nunca, em lugar algum, em nenhum momento, algum morto tenha voltado, nos faz abandonar essa crença, alimentada por lendas, por invenções mil, que jamais tiveram qualquer comprovação, prática ou científica. Acreditamos porque queremos acreditar. Ponto final.

Assim, a vida vale muito pouco, se não temos um pensamento humanista um pouco mais profundo que o raso das religiões e abstrações metafísicas. Somos criados, formados, deformados e conformados nesse tipo de crença. Fulano morreu, assassinado ou não: foi para o lado de lá, está nos braços de deus. Besteira! Só temos esta vida e mais nada. E temos que dar a ela todo o valor possível.

Não matarás. A proibição do deus passa por vazia, diante das barbaridades que em seu nome o homem já cometeu. E não adianta argumentar: todos acham que o amor é o sentimento que vai unir os homens e evitar que nos matemos. Outra ilusão. Amamos o próximo, quando o próximo está realmente próximo de nós: os parentes, os amigos... Os demais são inimigos, se invadem nosso território. Porque temos o instinto da sobrevivência, da defesa do território. Temos, ainda, dentro de nós, a fera a ser domada.

E aqui entramos na prática: qual a diferença entre o correria da periferia que mata para roubar um Rolex que lhe dará uma pretensa sobrevivência em seu território e um mauricinho dos Jardins que cheira todas e provoca brigas na balada elegante, regada a uísque e outras porcarias, alimentando a mesma cadeia de violência a que ele pensa estar imune? Há tanta violência num mundo quanto no outro. Às vezes, é só questão de oportunidade e motivação. O famoso cantor que atropela e mata inocentes com seu carrão importado, porque bebeu demais, é tão mano quanto o que usa o tresoitão para assustar o nosso apresentador de televisão.

A violência não é fruto da periferia, nem apenas das desigualdades sociais. Ela está em nosso íntimo, quando odiamos o garção que nos trouxe água com gás, quando pedíramos sem gás. Apenas controlamos, com o nível de civilização que alcançamos (e com muito esforço), os nossos instintos. E, se o meio permitisse que chutássemos a bunda desse garção, certamente o faríamos com gosto.

O caldo civilizatório da periferia abandonada, empobrecida, espoliada, sem oportunidades, é o mesmo caldo dos salões elegantes dos clubes dos bacanas. Muda apenas o verniz, o fino verniz que impede que os bacanas tomem de um revólver e saiam assaltando por aí (embora, às vezes, muitos o façam), mas não os impede que, através de seus negócios milionários, prejudiquem e, às vezes, condenem à miséria e à morte, milhões de outros seres humanos, quando estão em jogo os seus interesses econômicos.

Isso justifica a violência do mano contra o capitalista? Não. Claro que não. E talvez nem explique muito bem, mas nos ajuda a pensar que não estamos a salvo da violência, morando nos bairros elegantes ou na periferia, conduzindo carros importados à prova de bala, ou montados numa motocicleta a correr entre os automóveis das grandes avenidas, para entregar uma encomenda ou assaltar um mauricinho da tevê, que tem um relógio Rolex no pulso. Porque ela, a violência, está dentro de nós, nos escaninhos mais escondidos de nossa psique, moldada por pensamentos absurdos, por práticas milenares, por infinitas desculpas ou princípios que julgamos corretos e defendemos até à morte.

Não é violência o ato de um líder religioso respeitado mundialmente repudiar o uso da camisinha em relações sexuais, quando ela pode ser o único meio de evitar a contaminação pelo vírus da AIDS?

Não é violência transformar florestas em carvão ou pastagens para gado, sujar as águas dos rios com merda e produtos químicos, poluir o ar, destruir o planeta em que moramos, simplesmente porque ou é mais fácil fazer tudo isso ou porque visamos ao lucro imediato, apenas, sem pensar no futuro?

Não, não precisamos recordar guerras, chacinas, assassínios em massa, genocídios, torturas por motivos políticos, religiosos ou, simplesmente, porque não suportamos o diferente, o que não segue exatamente a nossa cartilha, o nosso pensamento. Não precisamos olhar dentro dos olhos da mãe que joga pela janela, no esgoto, a filha recém-nascida, para encontrar a violência. Também não precisamos recorrer aos morticínios programados por nazistas, fascistas, comunistas, ditadores ou falsos democratas de plantão nos escaninhos do poder, em todos os momentos da História do homem. Porque há milhares de formas de violência, algumas sutis, sim. Tão sutis que não nos damos conta dela, em nosso dia-a-dia, na esquina, no trânsito ou quando, sem razão ou motivo, respondemos com uma patada a uma pergunta inocente de nosso filho, de nosso cônjuge, só porque algo nos chateia. E tentamos justificá-la, à violência, seja ela explícita ou sutil, com mil formas de pensamento, esquecendo que toda violência gera mais violência.

O que mais me espanta, nesse episódio do assalto ao apresentador de televisão e a repercussão do caso, é que não se usa a razão, para buscar soluções ou, pelo menos, tentar entender o que está acontecendo. Radicalizam-se posições: de um lado, o assaltado a clamar por justiça, por vingança, por mais violência, como se a ele tivesse sido dada a condição de estar acima de tudo e de todos e nunca pudesse ter passado por tal experiência; do outro, o rapper a tentar justificar uma violência com os aspectos sociais de falta de oportunidade dos manos da periferia, como se todos os que se sentem explorados, espoliados e sem perspectivas se tornassem, obrigatoriamente, assaltantes e homicidas, num determinismo rasteiro e ultrapassado.

De um lado e de outro da contenda, politiza-se o debate, como se se pudesse culpabilizar o prefeito, o governador ou o presidente. Erguem-se mais muros e aprofunda-se o fosso da discriminação; criam-se, na mídia, nos debates, nas mentes, dois mundos, duas sociedades, com objetivos diferentes, com princípios diferentes. Não se busca na sociedade o que a sociedade, historicamente, criou. Esquece-se de que estamos todos no mesmo barco, estamos todos tentando a construção do país que desejamos para nós.

Não, não é o discurso babaca do somos todos irmãos: é a constatação de que, se queremos uma Nação, não podemos dividir essa Nação, esse povo, em dois povos, em dois pensamentos contraditórios, absolutamente irreconciliáveis, apenas porque há desavenças políticas e formas diferentes de encarar o mesmo problema. A democracia prescreve o respeito aos opositores, mas não dá aos opositores o direito de usurpar o poder a ferro e fogo, apenas por questiúnculas preconceituosas quanto à origem de quem está no poder. Democracia vive de disputas, de embates, de debates, mas principalmente de respeito. E não respeitar é violência, violência das bravas.

Temos de repensar se o tipo de sociedade que queremos é este, em que se pune exemplarmente o ladrãozinho de galinha e deixa soltos homicidas confessos. Se continuamos complacentes e continuamos a erguer monumentos aos heróis da guerra e da chacina, como se a violência, em determinadas circunstâncias, pudesse, de uma forma ou de outra, ser justificada.

Nada, repito, justifica a violência. Mas, para julgá-la e sobrepujá-la, temos ainda muito que discutir, muito que aprender, muito que mudar em nossos princípios, em nossa maneira de ver o mundo. Temos que aprender a respeitar o outro. Aprender a respeitar a vida. E, sobretudo, aprender a construir uma sociedade mais justa. E isso, definitivamente, como todos sabemos, é muito, muito difícil. Talvez uma utopia.

Mas é o único caminho que temos para suplantar a barbárie e construir uma civilização que tenha um verniz um pouco mais resistente.

Ou, não?

Isaías Sidney


isasidney@uol.com.br

enviada por Arlindo



06/11/2007 15:01

"Opinião pública" x plebiscitos

Vamos entender um pouco melhor o momento político atual na América Latina, as mudanças ocorridas na Venezuela de Hugo Chávez, e o alarido em torno da suposta emenda da eleição eterna.

É um tema que dará muito pano para manga para nossos cientistas políticos.

Os anos 80 marcaram a falência dos modelos autoritários no continente, especialmente após a crise das Malvinas e a crise econômica brasileira depois o segundo choque do petróleo. Há um movimento que trouxe a a redemocratização, mas não a assimilação completa do espírito democrático. A luta pelo poder transferiu-se dos quartéis para outras instâncias.

Numa primeira rodada, assumem os partidos de oposição e o que se convencionou chamar de “sociedade civil organizada”. Há os exageros e abusos de todo processo inicial de redemocratização.

Na rodada seguinte, o poder de fato passa a ser exercido por um ente fluido chamado “opinião pública”, que tem na mídia convencional seu principal agente.

Mantém-se a velha postura golpista, mas dentro das novas regras democráticas – esse é o dado curioso e diretamente inspirado no episódio Watergate. Na Venezuela, derruba Carlos Andrés Perez, um neoliberal; no Brasil, Fernando Collor, outro neoliberal (para usar uma qualificação de uso corrente). E, ao longo dos anos 90, torna-se fator freqüente de instabilidade, seja contra governos “neoliberais”, como o de Fernando Henrique Cardoso; ou de “esquerdas” como o de Lula. Na Venezuela, consegue, inclusive, derrubar por alguns dias o presidente eleito Hugo Chávez - aliás, um dado que deve ser bem pesado quando se analisam os episódios recentes na Venezuela.

O modelo de atuação é simples e já foi utilizado em outros momentos da história. Cria-se um alarido, em plena consonância com o chamado mercado, uma seqüência de denúncias, uma aliança pontual com a oposição – antes, PT; agora, PSDB e DEM - , um movimento da opinião pública midiática que influencia o Congresso e permite o julgamento político que leva ao “impeachment”.

Tudo de acordo com a Constituição. É a neo-democracia golpista do continente.

Não se pense em movimentos golpistas articulados – a não ser no caso da Venezuela -, com conspiradores acertando como será a queda. Trata-se de um processo gradativo de deturpação do papel da mídia, uma maneira torta de fazer jornalismo que passa a se confundir imperceptivelmente com a vontade de usupar o poder político. E se funda em alguns pontos muito nítidos.

O primeiro, é a parceria com o chamado “mercado”, estratégia que passa pela desmoralização do poder político – com a notável contribuição dos políticos, saliente-se. Quando começou esse novo jornalismo, um dos pratos prediletos era fotografar o plenarinho da Câmara (sessão sem importância, onde deputados aproveitam para mandar recados para suas bases), vazio, e apresentar como prova de que os políticos são vagabundos.

O segundo, é demonizar qualquer forma de gasto que não seja com juros, especialmente gastos sociais.
O terceiro, é o vício permanente em pretender exercitar os músculos derrubando presidentes.

Como se contrapor a esse poder avassalador da mídia, de sua capacidade de produzir escândalos sobre fatos reais ou fictícios e ter a reveberação no mercado?

É nesse cenário que se passa a questionar a legitimidade da chamada “opinião pública”. Se o Congresso é ilegítimo para representar os eleitores, porque a chamada “opinião pública midiática” seria a legítima representante dos anseios da maioria? Se é para ascultar a maioria, abaixo os intermediários, abaixo as supostas pesquisas de opinião e venham os plebiscitos.

Foi o que conceituados cientistas políticos, como Fábio Wanderley dos Reis e Wanderlei Guilherme dos Santos escreveram ultimamente, ironizando os que pretendiam falar em nome da maioria.

Só que, com os plebiscitos, substitui-se uma ditadura da minoria – representada pela opinião pública midiática – pela ditadura da maioria. Continua ditadura.

Esse é o dilema que irá sacudir o continente nos próximos anos, nesse confronto cada vez mais feroz entre modelo político e modelo midiático.



enviada por Luis Nassif
enviada por Arlindo



05/11/2007 11:59

VENEZUELA

Carta de um venezuelano à Veja a respeito da reportagem de capa da mesma sobre Hugo Chávez "À Sombra do Ditador"

Prezados editores da Veja,

Meu nome é Yojin Ramones, venezuelano vivendo no Brasil e fincando raízes neste país, já com uma filha brasileira. Escrevo estas linhas em espanhol, porque imagino que o conhecimento deste idioma é total da parte dos senhores, pela análise que fazem de meu país, a Venezuela.
A capa da última edição da revista, como outras anteriores, demonstra um desconhecimento real da situação na Venezuela. Porém o mais grave é que isso é feito de maneira intencional, manipulando totalmente a verdade para apresentar uma matriz de opinião de ditadura.
Pois bem, vou dar as características da ditadura de que os senhores falam.
Na Venezuela se recuperou a economia de uma forma acelerada, melhorando o poder aquisitivo de todos – escutem, de todos – os venezuelanos, ricos e pobres (antes eram apenas os ricos). O país tem anualmente o crescimento do PIB (Produto Interno bruto) mais elevado da América Latina.
Nessa ditadura se convoca referendos sobre os temas mais importantes do país, para que o povo opine e escolha o que quiser.
Nessa ditadura consertou-se os abusos dos bancos na exploração de seus clientes. Por exemplo, a taxa de juro anual de um cartão de crédito é de 28%. Aqui no Brasil é de 120%.
Nessa ditadura há escassez de veículos porque todos compram carros.
Essa ditadura se dá ao luxo de sofrer um golpe de Estado, e ver todos os meios de comunicação entrarem em cadeia para falar mal, humilhar e até falar xenofobicamente das pessoas, sem que exista uma só pessoa presa por isso.
Em matéria de obras, como metrôs, pontes, teleférico, aeroportos, etc., não há país da América latina que tenha tantas em apenas oito anos.
Nessa ditadura a gasolina custa 5 centavos de real o litro, o que os neoliberais chamam de populismo.
Nessa ditadura os serviços de saúde devolveram a vista a milhares de pessoas carentes de recursos, não só venezuelanos mas latino-americanos, e pela primeira vez muitos bairros pobres têm um médico para dar atenção às pessoas.
Nessa ditadura o poder é cada dia mais transferido para o povo, essas pessoas de poucos recursos, que antes só eram recordadas nas eleições, sendo tratadas como pseudo-escravos.
Essa ditadura busca na integração do Sul a prioridade do crescimento de nossas raízes e forças latino-americanas.
Por estas e muitas outras razões, essa ditadura, como os senhores a chamam, para nós é cristianismo, igualdade, esperanças. Sei que no Brasil as pessoas são muito boas, têm os mesmos desejos de progresso. Mas com a publicação dos senhores, a televisão Globo, seus canais de TV a cabo ou por satélite as pessoas não vão poder formar uma opinião, porque estão cercadas midiaticamente, hipnotizadas por programas como o BBB Brasil, para que nunca descubram a realidade em volta delas.
No entanto, hoje em dia as cercas vêm abaixo, as pessoas opinam, tomam atitude, quer dizer, evoluem para a busca da verdade. O tempo dará razão a quem a tiver. Sem mais para agregar e agradecendo o tempo dos senhores na leitura destas linhas,

Yojin Ramones".


Mais detalhes em http://edu.guim.blog.uol.com.br/


enviada por Arlindo



26/10/2007 14:42

Onde andará o meu doutor?

Hoje acordei sentindo uma dorzinha,
aquela dor sem explicação,
e uma palpitação,
resolvi procurar um doutor,
fui divagando pelo caminho...
Lembrei daquele médico que me atendia vestido de branco
e que para mim tinha um pouco de pai, de amigo e de anjo...
O Meu Doutor que curava a minha dor,
não apenas a do meu corpo mas a da minha alma,
que me transmitia paz e calma!
Chegando à recepção do consultório,
fui atendida com uma pergunta:
QUAL O SEU PLANO?
O MEU PLANO?
Ah, o meu plano é viver mais e feliz!
é dar sorrisos, aquecer os que sentem frio
e preencher esse vazio que sinto agora!
Mas a resposta teria que ser outra...
o MEU PLANO DE SAÚDE...
Apresentei o documento do dito cujo
já meio suada, tanto quanto o meu bolso, e aguardei...
Quando fui chamada corri apressada,
ia ser atendida pelo Doutor,
aquele que cura qualquer tipo de dor...
Entrei e o olhei, me surpreendi,
rosto trancado, triste e cansado...
será que ele estava adoentado?
É, quem sabe, talvez gripado
não tinha um semblante alegre,
provavelmente devido à febre...
Dei um sorriso meio de lado e um bom dia...
Sobre a mesa, à sua frente, um computador,
e no seu semblante a sua dor.
O que fizeram com o Doutor?
Quando ouvi a sua voz de repente:
O que a senhora sente?
Como eu gostaria de saber o que ELE estava sentindo...
Parecia mais doente do que eu, a paciente...
Eu? ah! sinto uma dorzinha na barriga e uma palpitação
e esperei a sua reação.
Vai me examinar, escutar a minha voz
auscultar o meu coração...
Para minha surpresa apenas me entregou uma requisição e disse:
peça autorização desses exames para conseguir a realização...
Quando li quase morri...
TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA,
RESSONÂNCIA MAGNÉTICA
e CINTILOGRAFIA!?
Ai, meu Deus! que agonia!
Eu só conhecia uma tal de abreugrafia...
Só sabia que ressonar era (dormir),
De magnético eu conhecia um olhar...
E cintilar só o das estrelas!
Estaria eu à beira da morte? de ir para o céu?
Iria morrer assim ao léu?
Naquele instante timidamente pensei em falar:
Terá o senhor uma amostra grátis
de calor humano para aquecer esse meu frio?
Que fazer com essa sensação de vazio?
e observe, Doutor,
o tal Pai da Medicina, o grego Hipócrates, acreditava que
A ARTE DA MEDICINA ESTAVA EM OBSERVAR.
Olhe para mim...
Bem verdade que o juramento dele está ultrapassado!
médico não é sacerdote...
Tem família e todos os problemas inerentes ao ser humano...
Mas, por favor, me olhe, ouça a minha história!
Preciso que o senhor me escute, ausculte
e examine!
Estou sentindo falta de dizer até aquele 33!
Não me abandone assim de uma vez!
Procure os sinais da minha doença e cultive a minha esperança!
Alimente a minha mente e o meu coração...
Me dê, ao menos, uma explicação! O senhor não se informou se eu ando descalça... ando sim!
gosto de pisar na areia e seguir em frente
deixando as minhas pegadas pelas estradas da vida,
estarei errada?
Ou estarei com o verme do amarelão?
Existirá umas gotinhas de solução?
Será que já existe vacina contra o tédio?
Ou não terá remédio?
Que falta o senhor me faz, meu antigo Doutor!
Cadê o Scott, aquele da Emulsão?
Que tinha um gosto horrível mas me deixava forte
que nem um Sansão!
E o Elixir? Paregórico e categórico,
E o chazinho de cidreira,
que me deixava a sorrir sem tonteiras?
Será que pensei asneiras?
Ah! meu querido e adoentado Doutor!
Sinto saudades
dos seus ouvidos para me escutar,
das suas mãos para me examinar,
do seu olhar compreensivo e amigo...
do seu pensar...
O seu sorriso que aliviava a minha dor...
Que me dava forças para lutar contra a doença...
e que estimulava a minha saúde e a minha crença...
Sairei daqui para um ataúde?
Preciso viver e ter saúde!
Por favor, me ajude!
Oh! meu Deus, cuide do meu médico e de mim,
caso contrário chegaremos ao fim...
Porque da consulta só restou uma requisição
digitada em um computador
e o olhar vago e cansado do Doutor!
Precisamos urgente dos nossos médicos amigos,
a medicina agoniza...
ouço até os seus gemidos...
Por favor, tragam de volta o meu Doutor!
Estamos todos doentes e sentindo dor...
E peço, para o ser humano, uma receita de calor,
e para o exercício da medicina..... uma prescrição de amor!

(Tatiana Bruscky)

Tatiana Bruscky é médica e mora em Recife (PE)
Publicada no Portal do Envelhecimento no mês de março de 2006.


enviada por Arlindo



23/10/2007 09:56

Por que não Lamarca?

Da coluna do Sebastião Nery, na Tribuna da Imprensa online:

Não foi só Lamarca

"O Forte de Copacabana estava sob o comando do capitão Euclides Hermes da Fonseca. Lá então preparou-se a revolta desde a madrugada de 3 de julho de 1922. Reuniram-se ali cerca de 300 rebeldes.

O general Bonifácio da Costa, emissário de Pandiá Calógeras, ministro da Guerra, deu voz de prisão ao capitão Euclides Hermes. Nesse exato momento, entrou o tenente Siqueira Campos, já no papel de líder da revolta: - Somos revolucionários e recusamos as ordens do governo. Portanto, general Bonifácio, o senhor é quem está preso. A uma companhia do 3º Regimento de Infantaria, mandou dizer:

- Retirem-se ou serão aniquilados!

O primeiro canhão disparou. No ardor da revolta, os sediciosos esperavam acertar um petardo no prédio onde estaria o ministro da Guerra. No meio do caminho, várias casas foram atingidas. Alguns civis morreram".

18 do Forte

"O tenente Eduardo Gomes manobrava um canhão, disparando-o ininterruptamente. Na Escola Militar de Realengo, os oficiais instrutores Juarez Távora, Cordeiro de Farias, Odylo Denis, Canrobert Pereira da Costa, Falconiere da Cunha e outros, com mais 400 cadetes, conseguiram retirar da fábrica de cartuxos grande quantidade de munição e marcharam para a Vila Militar e dali rumar para o Palácio do Catete, para derrubar Epitácio Pessoa.

Enquanto isso, no Forte de Copacabana, a luta prosseguia. A situação tornou-se desesperadora: - Preparem-se para morrer, gritou Siqueira Campos aos companheiros. Novo telefonema do ministro da Guerra levou um ultimato aos rebeldes. Se não se rendessem, seriam arrasados. O capitão Euclides Hermes respondeu que, nesse caso, revidariam com toneladas de explosivos, fazendo chover fogo sobre a cidade. Liberaram Hermes para sair e parlamentar. Combinaram que, se ele fosse preso, bombardeariam a cidade".

Juracy

"Mesmo em desvantagem, os revoltosos bateram-se com sobrenatural fervor e conseguiram liquidar cerca de 30 soldados do governo. Um sargento avançou sobre Siqueira Campos e, numa traiçoeira carga de baioneta, perfurou-lhe o abdome. Siqueira, mesmo ferido, conseguiu puxar o gatilho de sua parabellum e disparou sua última bala na cara do sargento. Em poças de sangue na areia da praia, jaziam os corpos dos jovens massacrados". (Memórias de Juracy Magalhães, "O último tenente", a J.A Gueiros.)

Prestes e Agildo

A história das Forças Armadas, no Brasil, nunca foi uma procissão, uma parada de 7 de Setembro. É uma fieira de levantes, rebeliões e lutas.

Em 24, Prestes se rebelou no Rio Grande e sua Coluna andou 25 mil quilômetros, atravessou 13 estados, até 27, lutando "para depor Bernardes". Em 30, na Paraíba (Juracy conta), "Agildo Barata, numa ação fulminante, distribuiu os oficiais e soldados já aliciados na conspiração, fazendo prender todos os que esboçavam resistência.

Era de uma coragem pessoal extraordinária. A luta foi encarniçada. Dei tiros, certamente abati alguns adversários, mas ali estávamos numa guerra, a opção era matar ou morrer. O general Lavanere Wanderley tentou uma reação, Agildo gritou: - Abram as portas ou jogarei uma granada! E Agildo fez fogo contra ele".

Veloso

Por não aceitarem a vitória e a posse de Juscelino, em fevereiro de 56, o major Haroldo Veloso e outros oficiais da Aeronáutica "apoderaram-se de um avião bimotor Beechcraft no parque dos Afonsos, no Rio, repleto de armas, explosivos e bombas, com destino a Cachimbo e Jacareacanga, comandando trabalhadores civis, armando índios e seringueiros" (DHBB da FGV).

Em dezembro de 59, o mesmo Veloso, com João Paulo Burnier e outros também da FAB, apoderou-se de um avião de linha comercial em pleno vôo e obrigou a tripulação a levar o aparelho a Aragarças, Goiás" (DHBB-FGV). E o Brasil inaugurava mundialmente o seqüestro de aviões comerciais.

Cordeiro

Em suas memórias ("Meio século de combate", Ed. Nova Fronteira), gravadas por Aspasia Camargo e Walder de Goes, Cordeiro de Farias contou: "Em fevereiro de 56 fui procurado no palácio de Pernambuco (era o governador) por cerca de 12 oficiais da Aeronáutica. Avisaram-me que pretendiam repetir o levante de Jacareacanga. A idéia era praticar um ato de grande violência: explodir a usina de Paulo Afonso. Disse a eles: - Vocês estão completamente loucos. Bombardeiem qualquer coisa, mas Paulo Afonso, que é a redenção do Nordeste, isso vocês não vão fazer não".

Lamarca

Todos eles, os de 22, 24, 30, 56, 59 e tantos outros episódios, inclusive os torturadores e assassinos de 64, foram unanimemente anistiados, voltaram às Forças Armadas e terminaram como generais, almirantes, brigadeiros. A nenhum deles foram negadas as patentes e as pensões para suas famílias.

Agora, tenta-se impedir que a viúva do ex-capitão Lamarca receba sua pensão. Alegam que ele "desertou, saiu do quartel com armas e matou um". Tudo que Lamarca fez os outros todos também fizeram. A história está aí.

enviada por Arlindo



21/10/2007 14:15

SINHÁ MOREIRA: UMA MULHER À FRENTE DO SEU TEMPO

Com cidadã(o)s assim é que faríamos um grande país. Qual a contribuição que você já deu hoje? Será que tudo tem que ser feito pelo Governo que nós elegemos ou pelo que nós não elegemos?

Na sua modéstia, na sua simplicidade, Dona Sinhá Moreira dá um lindo quinau nos nossos ricaços de vistas curtas, que cuidam só servir o dinheiro para luxos de novo-rico, e exibições no El Morocco e no Elephant Blanc. Milionário brasileiro ainda não aprendeu que, no mundo de hoje, o rico tem de se fazer perdoar pela sua riqueza, suprindo, com iniciativas de cultura, as lacunas do serviço público. E então aqui, onde o imposto de lucros extraordinários não funciona, e o imposto de renda só onera realmente os assalariados, eles deviam, mais que nenhum outro, pensar um pouco nos problemas de seu país. Raquel de Queiroz, Revista O Cruzeiro, 14 de março de 1959.

Um parêntese, antes de entrar propriamente no conteúdo do artigo: quanta atualidade nas palavras de Raquel de Queiroz, escritas há exatos 48 anos e 6 meses!... Suas palavras são a versão moderna do sentimento expresso por Frei Vicente de Salvador, há mais de 4 séculos: “Nenhum homem nesta terra é repúblico, nem zela e trata do bem comum, senão cada qual do bem particular.” Nada mudou!...

Com este artigo, vou fugir das questões econômicas e assemelhadas, para prestar homenagem a uma mulher, no centenário de seu nascimento, a ser comemorado em setembro deste ano. Refiro-me a Luzia Rennó Moreira, que passou à História com seu apelido: Sinhá Moreira. De Maria Ângela Paiva Franco , grande amiga e companheira de trabalho na Secretaria de Planejamento de Minas Gerais e na Fundação João Pinheiro, Mestra nas artes da Contabilidade Nacional e das Contas Regionais, ganhei um livro chamado Sinhá Moreira – Uma Mulher À Frente Do Seu Tempo, de Lílian Fontes, Editora Gryphus, 2007. Dela, e en passant, já ouvira falar pela própria Maria Ângela, de quem era parenta.

Vítima dos amores contrariados – dela, teria dito Garcia Márquez – “Chamava-se Olindo, ele e Sinhá tiveram uma forte paixão.” – Sinhá Moreira foi levada a casar-se com seu primo, Antônio Moreira de Abreu, Diplomata, para dele se separar apenas doze anos depois. Para a aristocracia rica de Santa Rita do Sapucaí, era inconcebível ter uma de suas filhas casada com um caixeiro viajante de nome Olindo, ainda que o amor assim mandasse.

A partir de seu desquite em dezembro de 1941, então com 34 anos, voltou Sinhá Moreira para Santa Rita do Sapucaí e decidiu viver com os pais. Data daí sua vida empreendedora, sua visão inovadora na economia e na sociedade. O mal de amor de Sinhá Moreira iria propiciar outros bens, para Santa Rita do Sapucaí, para Minas Gerais e para o Brasil, pela semente plantada.

Sinhá Moreira foi exemplo perfeito e acabado de liderança que a sociologia do desenvolvimento chama de modernização conservadora (não vai nenhum demérito no conceito). Minas Gerais deu também outros dois bons exemplos da modernização conservadora, estes em outra escala, claro: João Pinheiro e Juscelino Kubitscheck.

Essa visão conservadora mas ao mesmo tempo moderna da sociedade, boa parte dela aprendida e apreendida nos países pelos quais passou com o marido diplomata – especialmente Estados Unidos e Japão – viria frutificar depois em duas grandes criações suas: o Bairro Vista Alegre e a Escola Técnica de Eletrônica, habitação e educação.

Lílian Fontes resumiu bem o pensamento político então dominante sobre a questão habitacional: “Após a derrocada do Estado Novo, havia uma preocupação dos conservadores com a forte influência do Partido Comunista nos grandes centro urbanos, e então, eles acreditavam que o proletário com casa própria favoreceria uma certa estabilidade social.” E mais: “De revoltado contra a ordem social, o beneficiário passará a ser um sustentáculo dela, um homem que acredita na ascensão social.” (Instituto Brasileiro de Habitação – IBH – em Lílian Fontes).

Com esse substrato político, inteligente, perspicaz e determinada que era, Sinhá Moreira decidiu construir um bairro. “Vila não, papai, eu quero construir um bairro”, disse Sinhá Moreira com a determinação que lhe era peculiar.” E assim, da terra nua às 80 casas construídas, com as ruas se chamando esperança, inspiração, alegria, felicidade, tudo passou pelo crivo, coordenação e supervisão de Sinhá Moreira. As casas foram financiadas pelo Coronel Chico Moreira, seu pai – tabela price e 10 anos para pagar. A seus empregados, foram doados os terrenos e as casas. E o Bairro se chamou Vista Alegre! “Ela foi a precursora do Banco Nacional de Habitação, diz sua sobrinha, Regina Bilac Pinto.”

Sua modernização conservadora viria frutificar também no campo da educação. Começou por baixo: “..... por volta de 1954, 1955, juntamente com padre José, fundou a Associação do Educandário Santarritense, uma escola primária.” Sua grande criação viria depois. Com “a descoberta do transistor, em 1948, “ – filho da válvula e pai do chip – “a compactação e miniaturização dos circuitos, o processo eletrônico de dados”, e dada a “carência de profissionais de nível técnico nesse campo, Dona Sinhá teve a idéia de criar uma escola que suprisse tal necessidade.”

A idéia ganhou força de decisão tomada com a chegada de seu amigo Walter Telles dos Estados Unidos, onde ouvira de Albert Einstein em uma de suas palestras “..... que o mundo giraria em torno da eletrônica. Era caso de investir mesmo nessa área, .....” ..... “Na época, ainda não existia nenhuma escola de eletrônica na América do Sul.” E aí começou o périplo de Sinhá Moreira, até concluir, com todas as dificuldades e desconfianças inimagináveis, sua Escola Técnica de Eletrônica, em Santa Rita do Sapucaí. Um de seus diálogos é ilustrador. Perguntada pelo Professor José Nogueira Leite, de Itajubá, se “seria viável criar esse tipo de escola em Santa Rita do Sapucaí”, ela respondeu, curto e grosso: “eu quero”. E “Em março de 1959, começou funcionar a ETE.”

O curso tinha duração de 4 anos e teve seu início com uma turma de “13 alunos dos 60 que se candidataram.” Não havia legislação sobre esse tipo de curso no Brasil, o que foi feito em 17 de setembro de 1958 – não por acaso, aniversário de Sinhá Moreira – pelo Decreto 44.490, assinado pelo então Presidente Juscelino Kubitscheck, “com uma caneta de ouro” que lhe foi oferecida por Sinhá Moreira. Estavam criados os cursos de eletrônica em nível médio no Brasil.

Ao contrário do que a maioria de nós foi induzida a pensar, a verdadeira pioneira da bolsa escola foi Sinhá Moreira. É o que nos conta Ziraldo no prefácio do livro: “Por sorte, nosso grupo de Caratinga não era dos menos brilhantes – pelos menos, éramos muito espertos – mas o grupo de Santa Rita nos encantou pelo seu alto nível de conhecimento. Eles estavam ali por meritória conquista, haviam ganho, por seu talento, a bolsa de Dona Sinhá Moreira, uma de suas inúmeras iniciativas símbolo.” E isto no ano da graça de 1951!...

Posteriormente, e já na Escola Técnica de Eletrônica, Sinhá Moreira continuou com sua concessão de bolsas de estudo: bolsa simples, dispensa do pagamento das anuidades, “concedida pela fundação mantenedora, sob a forma de empréstimo”, onde o aluno contemplado assumia o compromisso de financiar outro aluno, quando formado; bolsa completa, “concedida por indústrias ou empresas e incluía o pagamento das anuidades e uma ajuda de custo para a hospedagem e a alimentação.”

Tudo isso aconteceu há mais de 65 anos atrás!... Sinhá Moreira intuiu o futuro!... A doença a impediu de presenciar a sua primeira turma de formandos em dezembro de 1962!... Morreria em março de 1963, aos 55 anos.

Vale a pena terminar este artigo com a transcrição do diálogo entre Sinhá Moreira e o então Presidente Juscelino Kubitscheck. Ronaldo Carvalho – em Lílian Fontes – “lembra até hoje do diálogo que houve na sala de visitas”.

“Senhor Presidente, eu sou a Sinhá Moreira, de Santa Rita do Sapucaí, da Escola Técnica de Eletrônica. O senhor naturalmente se lembra de nós.

E o Presidente respondeu: Mas é claro, Dona Sinhá, eu não poderia esquecer de uma obra de meu governo.”

Com sua altivez, ciente e consciente do trabalho que havia feito, Sinhá Moreira respondeu: “Não, presidente, o senhor vai me desculpar. Essa não foi uma obra do seu Governo. Essa foi uma obra nossa.

E ele então abriu um sorriso largo e deu um abraço em Sinhá.”


"SINHÁ MOREIRA: UMA MULHER À FRENTE DO SEU TEMPO"
Raul de Mattos Paixão Junior
Em comemoração do centenário de nascimento – 17/setembro/1907 – de Luzia Rennó Moreira, a Sinhá Moreira; e para Maria Ângela, também de Santa Rita do Sapucaí, e Murilo Franco, casal amigo
Artigo publicado no Mercado Comum , Ano XV, Número 187, de 1º/setembro a 31/outubro/2007


enviada por Arlindo



19/10/2007 11:05

Três sugestões para melhorar a mídia


Luiz Carlos Azenha

Tenho lido todo tipo de sugestão para melhorar a qualidade da mídia brasileira, para garantir a pluralidade, a diversidade de fontes e a produção local de conteúdo. Pessoalmente, acredito em auto-regulamentação. Existem questões mais complexas, que demandarão um debate prolongado. Faço três sugestões básicas. Nenhuma delas custa dinheiro. Todas contribuem, em minha opinião, para dar garantias de qualidade ao público:

1. A não publicação de mensagens ofensivas a terceiros, seja em colunas de leitor, seja em posts que dependem de aprovação do blogueiro ou do site. Em primeiro lugar, não parece haver dúvida jurídica de que quem aprova as mensagens é co-responsável pela divulgação do conteúdo. Mas é uma questão que vai além do Direito: ajudaria a elevar o nível do debate. Tenho notado um esforço para banir mensagens anônimas ofensivas a terceiros, o que me parece um primeiro passo. É impossível para um editor confirmar se existem informações mentirosas na mensagem, daí a necessidade de identificação do autor, preservando o direito de quem se considera caluniado de recorrer à Justiça.

2. Um banco de dados do jabá. As empresas jornalísticas, para cortar custos, têm aceito cada vez mais viagens patrocinadas por terceiros - de empresas a governos e escritórios de turismo. Pessoalmente, sou contra a prática, porque o leitor, ouvinte e telespectador pode ficar com uma pulga atrás da orelha sobre conflito de interesses. Porém, o mínimo que se pode fazer é deixar explícito, em todas as situações - vale para o rádio, a TV, os jornais e a internet - que as viagens foram pagas por terceiros. Por exemplo: a reportagem sobre uma viagem de trem pela Sibéria que tenha sido paga pelo governo russo deve vir acompanhada dessa informação. Também seria importante a criação de um "banco de dados do jabá". Esses favores feitos a empresas jornalísticas deveriam ser registrados, por exemplo, no site da ABERT - quando se tratar de emissoras de rádio e tevê. Para que o público tenha acesso ao conjunto das informações. Testando hipótese: a TAM paga várias viagens a equipes de uma emissora para reportagens de turismo. Se a partir daí a cobertura da empresa pelo veículo recebedor dos jabás for distorcida ou manipulada, teremos todos as informações para investigar se houve uma "troca de favores" básica.

3. A divulgação, no corpo das reportagens, dos possíveis conflitos de interesse, como já fazem alguns jornais americanos - dentre os quais o "Wall Street Journal" e o "New York Times". Uma reportagem de "O Globo" sobre a TV a cabo, por exemplo, deve deixar explícito que a empresa controladora do jornal tem interesses no setor. Se essa regra valesse quando a "Folha de S. Paulo" tinha uma granja, por exemplo, o jornal teria sido obrigado a mencionar o fato se fizesse uma campanha pelo consumo de omeletes.


Do Blog do Azenha: http://viomundo.globo.com/site.php?nome=MinhaCabeca

enviada por Arlindo



18/10/2007 09:28

A função social de FHC



Hoje em dia, qualquer reportagem que der na telha de um dos magos do telejornalismo - em geral, gente que nunca fez reportagem de televisão - é realizável. Existe um exército de "especialistas" e "personagens" à disposição, loucos para botar a cara na telinha.

Funciona assim: a tese vem pronta do aquário onde se reúnem os chefes. Um produtor precisa arranjar algum entrevistado para endossar a tese. Pede ajuda a um assessor de imprensa, que ganha para promover empresas ou indivíduos. Portanto, é do interesse do assessor emplacar o entrevistado numa reportagem. Quanto maior for a audiência, melhor, uma vez que "especialistas" tornam-se cada vez mais "especialistas" quanto mais gente achar que eles são "especialistas".

Nesse processo, ninguém quer palpite de repórter. Repórter às vezes pensa, às vezes descobre fatos que contradizem a tese do aquário, às vezes sabe que aquele entrevistado fala qualquer coisa para aparecer na televisão.

Quem aparece na televisão ganha credibilidade ou vira celebridade. Celebridade ganha camiseta para ir ao camarote da Brahma no Carnaval. Já a credibilidade televisiva resulta em convites para palestras pagas, vendas de livros e outros benefícios. A TV, especialmente no Brasil, funciona como um carimbo de aprovação, dado que o contraditório foi banido da telinha. Ou seja, o entrevistado sabe, ao dar a entrevista, que jamais será contestado por uma voz discordante.

No caso específico do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, vocês acham que com a idade que tem ele vive saindo do Brasil porque gosta de aeroporto? O homem ganha para fazer discurso. Ganha para falar mal do Lula ou dizer que existe um mal estar no Brasil - "malaise", como ele disse à BBC, um mal estar à francesa. Quanto mais polêmica FHC cria, mais aparece na mídia e maior o valor "de mercado" de sua falação.

FHC mata três coelhos com uma cajadada só: embolsa alguns milhares de dólares, aplaca sua vaidade pessoal e fala mal do Lula e do Brasil. Mal do Lula porque FHC não aceita que qualquer outro líder tenha sido melhor que ele. Se ele e Gandhi tivessem sido contemporâneos, o indiano estava frito. Mal do Brasil porque a elite branca que sustenta a mídia golpista adora quem fala mal do Brasil. É uma forma de justificar a vida que leva em um universo paralelo. É uma forma de justificar o gasto de 500 reais mensais com o bicho de estimação, que sobe pelo elevador social, enquanto a criadagem ganha R$ 380, se ganha, e anda de elevador de serviço.

Se o Brasil é uma droga mesmo, qual é o sentido de pagar impostos? Qual é o sentido de manter um Congresso? Qual é o sentido de assumir a responsabilidade pelo país? Qual é o sentido de apresentar um projeto alternativo? "Ora", dizem eles, "será que vocês não sabem que somos vítimas de um mal estar? O FHC falou na BBC que sofremos de 'malaise'. Ainda estamos em estado de choque com o furto do relógio do Luciano Huck".

A elite precisa dos discursos de FHC e das capas da Veja para justificar o que ela NÃO faz para enfrentar os problemas do Brasil real. Ela é parte de um Brasil distinto, superior, estudado, em que os negros não enxergam racismo, em que ninguém recorre ao Bolsa Família (isenções fiscais e empréstimos do BNDES a juros privilegiados não contam), que endossa a barbárie da tropa de elite contra a barbárie dos morenos, que concede meia página de jornal para um mauricinho choramingar a perda de um relógio.

Esse Brasil imaginário é formulado todo dia por meia dúzia de "eleitos", por uma panelinha cuja maior referência é o umbigo (o próprio e o dos outros cinco). Esse bombardeio contínuo é trabalho de convencimento da classe média, o que nos leva ao paradoxo de ver jovens "remediados" defendendo com unhas e dentes o interesse da elite à qual ambicionam, mas jamais vão pertencer. A obra ficcional dos "eleitos" você encontra todos os dias nas bancas de jornal. Ou todas as noites, entre duas novelas.

Nesse caso, em particular, eles vivem tentando ganhar o Emmy, quando deveriam disputar o prêmio Jabuti de ficção. Jabuti? Eles odeiam Jabuti. Que tal o Pulitzer?

Luiz Carlos AZENHA (http://viomundo.globo.com/site.php?nome=Bizarro&edicao=1389)
enviada por Arlindo



16/10/2007 09:40

A POLÊMICA DA VIOLÊNCIA

Isaias Edson Sidney (*)
15.10.2007


A violência está no ar das grandes cidades. E das pequenas, também. Um surto? Uma epidemia? Uma pandemia? Talvez. E, por isso, rende: reportagens, noticiários de televisão, artigos irados e indignados, depoimentos de vítimas, análises sociológicas, psicológicas, políticas e mais o que o diabo inventa.

Todo mundo fala, fala, e ninguém tem razão. Talvez, nem eu, quando resolvo meter minha colher nesse assunto. Mas, como cidadão, tenho, como todos os demais, direito à opinião.

Semana passada, um mauricinho da televisão, Luciano Huck, foi assaltado na Marginal, corredor mais do que movimentado, da cidade de São Paulo. Levaram-lhe o Rolex, depois de lhe encostarem um trabuco na cara. Motoqueiro.

Como é vip, teve tratamento vip da imprensa (leia-se: Folha de São Paulo), que publicou um artigo do moço, reclamando da falta de segurança, reclamando da violência, reclamando a presença, até, do famigerado comandante Nascimento, do filme Tropa de Elite, o hit do momento do cinema nacional. O tal major do filme é pelo dente por dente, olho por olho. E vingança pouca é bobagem.

Alguns dias depois, a mesma imprensa publicou um artigo de um rapper da periferia, o Ferréz, pseudônimo de Reginaldo Ferreira da Silva, também escritor. Nele, o moço tenta explicar o gesto do motoqueiro, falando da vida dura de um correria, eufemismo para assaltante de moto, vindo da periferia. É mais uma obra de ficção, mas contém uma visão do outro lado da moeda.

Estava armada a polêmica. Grosserias à parte, escreveu-se muita bobagem, atiçaram-se os ânimos e ambas as partes estão jogando muita merda no ventilador, ou melhor, uns na cara dos outros.
É o tipo de polêmica em que todo mundo grita, todo mundo xinga e acaba ninguém tendo razão nenhuma, porque a razão está longe de quem se intitula dono da verdade, ou está imbuído do preconceito mais profundo. E, no caso, há, sim, preconceito de ambas as partes.

Não sei se conseguirei levantar todos os argumentos para defender meu ponto de vista, que é complexo. Não sou dono da verdade, disse e repito. Por isso, tudo o que abaixo se segue tem apenas a finalidade de tentar (somente tentar) lançar uma nova visão, ou, quando muito, raciocinar sobre um tema cabeludo e tentar trazê-lo à razão e não à emoção.

Minha visão de homem vai um pouco além ou fica um pouco aquém de todas visões sociológicas, psicológicas e, principalmente, religiosas. A longa tradição do pensamento ocidental (e, acredito, grande parte do oriental, também) vê o homem como o anjo decaído, o que foi criado à imagem e semelhança de um deus. Esse pensamento contamina, por via da metafísica, todo a filosofia e toda tentativa de explicar o ser humano, seja qual for a ferramenta utilizada para isso.

O homem não é ser criado, nem anjo decaído. Traz em seus genes, em sua memória ancestral, toda a animalidade, toda a ferocidade, toda a luta pela sobrevivência que os milhões de anos da evolução da vida gravaram em sua mente, em seu corpo, em seu pensamento. Somos, sim, fruto dessa luta, árdua, sem tréguas, como caça e caçadores, como vítimas e como predadores. Não temos bondade nem maldade em nossos atos pregressos. Temos apenas a luta.

A evolução nos trouxe o pensamento lógico. O pensamento lógico permitiu-nos a comunicação, a mais complexa e determinante arte que o homem inventou, em todos os tempos. Através dela, nos civilizamos. Ou melhor, construímos pretensas civilizações. Mas não deixamos de ser o predador, porque sofisticamos nossos meios de sobrevivência. Temos um verniz civilizatório. Mas não somos civilizados.

Civilizar-se significa opor-se atrozmente contra nossos instintos vitais, de luta, de violência, de conquista. E não amamos uns aos outros: quando muito, aprendemos a nos respeitar. Porque não há amor na luta pela sobrevivência, nem ódio. Foram categorias que inventamos, quando criamos deuses, religiões e outras alegorias metafísicas, para explicar o que não entendíamos, para justificar o que não se podia justificar.

Se tomarmos a bíblia judaico-cristã, o mesmo deus do não matarás comete atrocidades terríveis ao longo das páginas desse livro. Exemplo? Sodoma e Gomorra. Cidades destruídas pela fúria desse deus. E basta ler poucas páginas, para encontrarmos recomendações de extinção do inimigo, a ferro e fogo, olho por olho, dente por dente.

Nem o Cristo, que pretensamente pregou o amor, escapa à ira, quando chicoteia os vendilhões do templo. Além disso, por mais filosófica e terna que seja considerada por muitos sua mensagem, no frigir dos ovos, é tão excludente, que só os que o seguem obterão o reino dos céus. O que leva a condenar ao inferno todos os demais. E o que é isso senão a suprema violência? (Eu sei que muitos me odiarão por isso. Paciência: dar a outra face é, mesmo, utopia).

Cultivamos a morte. Não a vida. Porque o deus que nós inventamos disse que esse mundo é apenas uma passagem. A verdadeira vida vem depois. E acreditamos nisso, como um truísmo. Nada, nem o fato de que nunca, em lugar algum, em nenhum momento, algum morto tenha voltado, nos faz abandonar essa crença, alimentada por lendas, por invenções mil, que jamais tiveram qualquer comprovação, prática ou científica. Acreditamos porque queremos acreditar. Ponto final.

Assim, a vida vale muito pouco, se não temos um pensamento humanista um pouco mais profundo que o raso das religiões e abstrações metafísicas. Somos criados, formados, deformados e conformados nesse tipo de crença. Fulano morreu, assassinado ou não: foi para o lado de lá, está nos braços de deus. Besteira! Só temos esta vida e mais nada. E temos que dar a ela todo o valor possível.

Não matarás. A proibição do deus passa por vazia, diante das barbaridades que em seu nome o homem já cometeu. E não adianta argumentar: todos acham que o amor é o sentimento que vai unir os homens e evitar que nos matemos. Outra ilusão. Amamos o próximo, quando o próximo está realmente próximo de nós: os parentes, os amigos... Os demais são inimigos, se invadem nosso território. Porque temos o instinto da sobrevivência, da defesa do território. Temos, ainda, dentro de nós, a fera a ser domada.

E aqui entramos na prática: qual a diferença entre o correria da periferia que mata para roubar um Rolex que lhe dará uma pretensa sobrevivência em seu território e um mauricinho dos Jardins que cheira todas e provoca brigas na balada elegante, regada a uísque e outras porcarias, alimentando a mesma cadeia de violência a que ele pensa estar imune? Há tanta violência num mundo quanto no outro. Às vezes, é só questão de oportunidade e motivação. O famoso cantor que atropela e mata inocentes com seu carrão importado, porque bebeu demais, é tão mano quanto o que usa o tresoitão para assustar o nosso apresentador de televisão.

A violência não é fruto da periferia, nem apenas das desigualdades sociais. Ela está em nosso íntimo, quando odiamos o garção que nos trouxe água com gás, quando pedíramos sem gás. Apenas controlamos, com o nível de civilização que alcançamos (e com muito esforço), os nossos instintos. E, se o meio permitisse que chutássemos a bunda desse garção, certamente o faríamos com gosto.

O caldo civilizatório da periferia abandonada, empobrecida, espoliada, sem oportunidades, é o mesmo caldo dos salões elegantes dos clubes dos bacanas. Muda apenas o verniz, o fino verniz que impede que os bacanas tomem de um revólver e saiam assaltando por aí (embora, às vezes, muitos o façam), mas não os impede que, através de seus negócios milionários, prejudiquem e, às vezes, condenem à miséria e à morte, milhões de outros seres humanos, quando estão em jogo os seus interesses econômicos.

Isso justifica a violência do mano contra o capitalista? Não. Claro que não. E talvez nem explique muito bem, mas nos ajuda a pensar que não estamos a salvo da violência, morando nos bairros elegantes ou na periferia, conduzindo carros importados à prova de bala, ou montados numa motocicleta a correr entre os automóveis das grandes avenidas, para entregar uma encomenda ou assaltar um mauricinho da tevê, que tem um relógio Rolex no pulso. Porque ela, a violência, está dentro de nós, nos escaninhos mais escondidos de nossa psique, moldada por pensamentos absurdos, por práticas milenares, por infinitas desculpas ou princípios que julgamos corretos e defendemos até à morte.

Não é violência o ato de um líder religioso respeitado mundialmente repudiar o uso da camisinha em relações sexuais, quando ela pode ser o único meio de evitar a contaminação pelo vírus da AIDS?

Não é violência transformar florestas em carvão ou pastagens para gado, sujar as águas dos rios com merda e produtos químicos, poluir o ar, destruir o planeta em que moramos, simplesmente porque ou é mais fácil fazer tudo isso ou porque visamos ao lucro imediato, apenas, sem pensar no futuro?

Não, não precisamos recordar guerras, chacinas, assassínios em massa, genocídios, torturas por motivos políticos, religiosos ou, simplesmente, porque não suportamos o diferente, o que não segue exatamente a nossa cartilha, o nosso pensamento. Não precisamos olhar dentro dos olhos da mãe que joga pela janela, no esgoto, a filha recém-nascida, para encontrar a violência. Também não precisamos recorrer aos morticínios programados por nazistas, fascistas, comunistas, ditadores ou falsos democratas de plantão nos escaninhos do poder, em todos os momentos da História do homem. Porque há milhares de formas de violência, algumas sutis, sim. Tão sutis que não nos damos conta dela, em nosso dia-a-dia, na esquina, no trânsito ou quando, sem razão ou motivo, respondemos com uma patada a uma pergunta inocente de nosso filho, de nosso cônjuge, só porque algo nos chateia. E tentamos justificá-la, à violência, seja ela explícita ou sutil, com mil formas de pensamento, esquecendo que toda violência gera mais violência.

O que mais me espanta, nesse episódio do assalto ao apresentador de televisão e a repercussão do caso, é que não se usa a razão, para buscar soluções ou, pelo menos, tentar entender o que está acontecendo. Radicalizam-se posições: de um lado, o assaltado a clamar por justiça, por vingança, por mais violência, como se a ele tivesse sido dada a condição de estar acima de tudo e de todos e nunca pudesse ter passado por tal experiência; do outro, o rapper a tentar justificar uma violência com os aspectos sociais de falta de oportunidade dos manos da periferia, como se todos os que se sentem explorados, espoliados e sem perspectivas se tornassem, obrigatoriamente, assaltantes e homicidas, num determinismo rasteiro e ultrapassado.

De um lado e de outro da contenda, politiza-se o debate, como se se pudesse culpabilizar o prefeito, o governador ou o presidente. Erguem-se mais muros e aprofunda-se o fosso da discriminação; criam-se, na mídia, nos debates, nas mentes, dois mundos, duas sociedades, com objetivos diferentes, com princípios diferentes. Não se busca na sociedade o que a sociedade, historicamente, criou. Esquece-se de que estamos todos no mesmo barco, estamos todos tentando a construção do país que desejamos para nós.

Não, não é o discurso babaca do somos todos irmãos: é a constatação de que, se queremos uma Nação, não podemos dividir essa Nação, esse povo, em dois povos, em dois pensamentos contraditórios, absolutamente irreconciliáveis, apenas porque há desavenças políticas e formas diferentes de encarar o mesmo problema. A democracia prescreve o respeito aos opositores, mas não dá aos opositores o direito de usurpar o poder a ferro e fogo, apenas por questiúnculas preconceituosas quanto à origem de quem está no poder. Democracia vive de disputas, de embates, de debates, mas principalmente de respeito. E não respeitar é violência, violência das bravas.

Temos de repensar se o tipo de sociedade que queremos é este, em que se pune exemplarmente o ladrãozinho de galinha e deixa soltos homicidas confessos. Se continuamos complacentes e continuamos a erguer monumentos aos heróis da guerra e da chacina, como se a violência, em determinadas circunstâncias, pudesse, de uma forma ou de outra, ser justificada.

Nada, repito, justifica a violência. Mas, para julgá-la e sobrepujá-la, temos ainda muito que discutir, muito que aprender, muito que mudar em nossos princípios, em nossa maneira de ver o mundo. Temos que aprender a respeitar o outro. Aprender a respeitar a vida. E, sobretudo, aprender a construir uma sociedade mais justa. E isso, definitivamente, como todos sabemos, é muito, muito difícil. Talvez uma utopia.

Mas é o único caminho que temos para suplantar a barbárie e construir uma civilização que tenha um verniz um pouco mais resistente.

Ou, não?


(*) Isaías E. Sidney é dramaturgo e mora em SP.
Blogues do Isaías:
http://www.venenodecobra2003.blogger.com.br
http://blogdomacaco.blog.uol.com.br/
http://www.futebolevida.blogger.com.br/index.html

enviada por Arlindo



16/10/2007 00:40

"Lugar de negro"

Eduardo Guimarães in Cidadania.com
(http://edu.guim.blog.uol.com.br/)


O escritor Ferréz e o rapper Mano Brown são de origem pobre. Venceram sozinhos, contra tudo e contra todos, e se tornaram pessoas eminentes. Mas, neste país, ser negro - ou habitar o universo dos negros - é ser condenado a ser tratado como bandido e/ou vagabundo por parte da elite branca indo-européia, imortalizada, surpreendentemente, pelo ex-governador pefelista Claudio Lembo.

Aos brancos tudo é permitido. Praticam racismo ao chamarem de "racista" a política do governo federal que está levando negros ao ensino superior num país em que a porcentagem deles que chega às universidades é uma fração de sua representação proporcional na população; acusam os mais fracos, sobretudo se habitarem os guetos dos negros, de qualquer crime com base em suposições sobre o que possam dizer por meio do vocabulário étnico que desenvolveram nos guetos em que foram segregados depois que abriram as portas da senzala para os que habitam esse universo. E essa parte apodrecida da elite branca faz isso sem qualquer temor quanto a processos por calúnia e difamação, certa de que a pigmentação de sua pele e suas contas bancárias lhes garantirão impunidade.

Um bom exemplo desse desprezo, desse destemor para delinqüir contra os mais fracos, contra os que não têm a cor da pele "certa" e, por isso, não se imagina que ganhem processos na Justiça contra aqueles que ocupam o topo da pirâmide social por terem a pele clara - e quem diz que cor da pele determina classe social são as estatísticas, não eu -, foi o artigo "A pluralidade e a revolução dos idiotas", do colunista da Veja Reinaldo Azevedo, publicado hoje pela Folha de São Paulo (assinante da Folha, clique aqui).

De quantos crimes Azevedo acusou Ferréz? Vejamos:

1º) "[Ferréz] fez a apologia do crime", acusa o ex-dono da revista Primeira Leitura, uma das que receberam recursos públicos da Nossa Caixa, recursos cuja a natureza do recebimento ainda estão por ser explicados à Justiça. Recursos que, inclusive, se ao invés de serem aplicados em revistas que fazem apologia de partidos políticos fossem aplicados no Capão Redondo de Ferréz, minimizariam a violência, a criminalidade, o estímulo que este país dá aos "correrias" para buscarem formas menos convencionais de sobrevivência;

2º) "O bairro do Capão Redondo é seu produto, e a voz dos marginalizados, o fetiche de sua mercadoria". Agora, a acusação é feita, mas não se sabe qual é. Tráfico de drogas? Incitação à criminalidade? Não se sabe qual é a acusação, mas sabe-se que é grave. Azevedo não faria essa acusação a alguém de seu nível social, porque o julgamento seria entre iguais num país em que qualquer estudo sobre as decisões da Justiça mostra que quem triunfa nela é, prioritariamente, quem tem mais dinheiro, e quem tem mais dinheiro, no Brasil, são os brancos;

3º) Azevedo também nega a Ferréz liberdade de expressão: "Um democrata não deve, em nome de seus princípios, conceder a seus inimigos licenças que estes, em nome dos deles, a ele não concederiam se chegassem ao poder". Ferréz não seria um democrata, e o articulista ainda afirma que se gente como ele chegasse ao poder agiria como o mesmo Azevedo prega que a Folha aja, censurando. O texto deixa claro que Ferréz, por ser quem é, não deveria ter o direito de se manifestar num veículo como a Folha.

E Azevedo gosta de estatísticas, também. Diz que a criminalidade, em São Paulo, é menor do que no Rio ou em Pernambuco porque a polícia paulista prende mais. O indivíduo que se dedica, onde quer que escreva ou fale, a, quase que exclusivamente, malhar adversários políticos do PSDB, exalta a política de Segurança Pública de São Paulo, governado há mais de uma década pelos tucanos. E usa como exemplo o fato de que o Estado mais populoso e mais rico da Federação tem cerca de metade dos presidiários do país.

O articulista não leva em conta que essas prisões incluem gente que já cumpriu pena e continua presa ou que a superlotação das cadeias paulistas gerou o mesmo PCC que no ano passado aterrorizou São Paulo. Não leva em conta, por exemplo, o fato de que os desastrosos presídios e reformatórios paulistas para jovens converteram-se, respectivamente, em universidades e escolas do crime, o que fez a criminalidade no Estado explodir a partir da assunção do governo paulista pelo PSDB, há mais de uma década.

Eu, no entanto, tenho outra explicação para o fato de a criminalidade em São Paulo ser proporcionalmente menor do que no Rio ou em Pernambuco. É que o Estado mais rico do país, por sê-lo, abriga gente menos pobre. Ainda assim, a política de Segurança Pública paulista prende e arrebenta, proporcionalmente, os mais pobres e os negros e descendentes de negros.

Estudo divulgado em 2006 pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas revela alguns dados bem esclarecedores. Compara a população adulta de São Paulo e Rio com suas populações carcerárias. Revela que 97,7% dos presidiários paulistas são homens, apesar de a população masculina do Estado equivaler a 48% do total. Desse percentual, 54,5% são jovens na faixa dos 20 aos 29 anos e 78% da população carcerária paulista não concluíram o ensino fundamental. E apesar de os negros e descendentes de negros representarem 26,3% da população, 35,8% dos presidiários são dessa etnia, o que equivale a dizer que num Estado majoritariamente branco, os negros e descendentes vão muito mais em cana do que os brancos.

Esses números revelam o peso da tragédia social brasileira no ato de delinqüir. Quem não percebe a relação entre pobreza, ignorância e criminalidade diante de números como esses? Só aqueles que acham que negros pobres são intrinsecamente maus e propensos à criminalidade e que o fato de serem os mais pobres e menos instruídos nada tem que ver com isso.

*

O leitor Rodrigo Leme me fez lembrar de Ferréz. Eu o havia confundido com Mano Brown e, por isso, disse que ele era negro. Ferréz não negro, mas habita o universo negro e pobre do Capão Redondo. Tirando esse detalhe, portanto, mantenho tudo o que escrevi.

enviada por Arlindo



15/10/2007 15:42

Quem não quer democracia?

Gilson Caroni Filho(*)

Um olhar ligeiro sobre a conjuntura política mostra a impostura de afirmações que não encontram o mais leve respaldo empírico na história recente. Mas uma perguntinha inconveniente surge no cipoal da insensatez. Quem detém o monopólio da produção simbólica do desprestígio?

Gilson Caroni Filho

Sábado, 15 de setembro de 2007. Uma data para ficar registrada. O embrião de um grande salto. Uma manifestação que ocupou a frente principal do jornal Folha de S.Paulo, no centro da capital paulista, marcou a criação do Movimento dos Sem Mídia (MSM). Faixas usadas na manifestação continham dizeres como: "Quero que a mídia fale, mas não me cale"; e "Imprensa plural, país igual". Algo impensável para o consenso estabelecido no campo jornalístico alguns anos antes. Um breve interregno em que editores se confraternizavam pelo "bom jornalismo" que julgavam praticar. E não lhes faltavam aplausos de conhecidos "observadores da imprensa". Como vimos, esse clima não demoraria muito, mas enquanto perdurou foi intenso.

Que toda unanimidade é burra já sabíamos desde Nélson Rodrigues. Que sua arquitetura requer a rápida desconstrução do passado e mergulho açodado em um jogo tolo de aparências continuamos a aprender no curso de uma campanha eleitoral que, para a grande imprensa, nunca terminará até que os tucanos voltem ao poder.

Nos dois primeiros anos do século, a festejada “isenção” da TV Globo no processo político, com direito a elogios à "admirável redefinição editorial da emissora", mostrou-se um sonho de outono que mal adentrou a primavera. É o caso de, mais uma vez, lembrarmos aos analistas de mídia que o pressuposto de seu exercício é o distanciamento do objeto analisado. Comemorações precipitadas obrigam a reavaliações amargas. Ou, em casos agudos de cinismo, a uma aposta no esquecimento do que foi dito e/ou escrito.

Bastaram a eleição de Lula, em 2002, e as derrotas subseqüentes das velhas oligarquias na Venezuela, Bolívia, Equador para a reluzente "carruagem democrática” regredir ao seu estágio de abóbora das forças mais reacionárias do continente. E o que era deslocamento sutil dentro dos marcos do bloco histórico se fez ataque sem tréguas contra o governo eleito, sem qualquer refinamento de edição. O noticiário editorializado, os conhecidos direcionamentos de títulos, e as coberturas viciadas mostraram à cidadania a urgência de resgatar a política do espetáculo editado. E era isso que pulsava na calçada da Alameda Barão de Limeira.

Ao contrário dos apologistas da imprensa nativa, que adotavam a própria crença como metro, alertamos que a redefinição estratégica na cobertura, em um curto espaço de tempo, não correspondia a uma efetiva postura democrática. Confundir ajuste tático com redefinição ética era de um primarismo tão gritante que chegava a ser suspeito. De pouco valeu nossa modesta contribuição. Nada havia a fazer quando o jornalismo, em discurso auto-referido, celebrava a si próprio como legado vivo de Plutarco.

De sustentáculo da ditadura, a TV Globo se transformou, como que por encanto, em fiadora da lisura do processo democrático. Bombas que sumiram de uma edição para a outra (Riocentro, 1981), censura ao movimento por eleições diretas para a Presidência da República (1985), edição de debates eleitorais para favorecer o candidato da direita (1989), expurgo de notícias que pudessem comprometer a candidatura à reeleição de FHC (1998) eram fatos que deveriam ser relevados. O momento, para jornalistas experientes, só comportava elogios. Todos exultavam a própria fantasia transformada em axioma: a mídia era, até 2006, a vencedora de qualquer pleito. E a democracia definida como festa cíclica, com dia e hora para acabar. Uma ironia histórica que insistia em eternizar o baile da ilha fiscal. As eternas bodas entre a classe dominante e sua imprensa confiável.

O editor e apresentador do Jornal Nacional, jornalista William Bonner, mais que mediador de debates era incensado como amestrador de fatos e atos. Aquele que, encarnando a face rousseauniana do campo midiático, não deixaria a “vontade geral” à mercê das manobras tergiversadoras dos políticos. O noticiário editorializado e os conhecidos direcionamentos de títulos e coberturas viciadas tiveram efeito paradoxal. Trouxeram a mídia para a agenda pública e o espaço contra-hegemônico não tem cessado de crescer.

A grande imprensa é, como afirmamos, em nossos últimos artigos para Carta Maior um campo dominado por forças que só compreendem o jogo político quando restrito a pactos oligárquicos ou transições por alto. Algo a ser combatido quando ameaça se ampliar. Para o êxito do empreendimento é necessário, paradoxalmente, despolitizar o texto, em procedimento registrado por Bourdieu:

"Todos esses mecanismos concorrem para produzir um efeito global de despolitização ou, mais exatamente, de desencanto com a política (...) A ausência de interesse pelas mudanças insensíveis, isto é, por todos os processos que, à maneira da deriva dos continentes, permanecem despercebidos e imperceptíveis no instante, e apenas revelam plenamente seus efeitos com o tempo, vem redobrar os efeitos da amnésia estrutural favorecida pela lógica do pensamento no dia-a-dia pela concorrência que impõe a identificação do importante e do novo". (Sobre a televisão, pág.139)

Trata-se de, à custa do sacrifício de uma análise diacrônica, registrar o fazer político em termos pontuais e sem qualquer conexão com a historicidade do local em que ocorre ou com aspectos caros à vida do leitor/telespectador. Teríamos o primeiro passo para o que, à falta de melhor termo, chamaremos aqui de o "eterno sincrônico". Um presente que se autodefine, positivado e decantado de qualquer promessa utópica. Uma farsa vendida como bem informar em nome do "interesse público".

É daí que vem o campo fértil para ilações vazias. Como as do sociólogo Simon Schwartzman, ao analisar a manutenção da popularidade de Lula, apesar do desprestígio de instituições junto à população, segundo pesquisa do Instituto Fernando Henrique Cardoso. Para Simon, “é essa combinação, exatamente, que dá margem ao surgimento de governos unipessoais e autoritários, que passam por cima das instituições em nome de seu prestígio junto às massas”. Concluindo, o pesquisador afirma que “um Congresso fraco, desprestigiado é uma presa fácil de políticos que possam propor seu fechamento, ou sua substituição por uma assembléia constituinte, por exemplo, que possa criar as bases para um regime centralizado e autoritário".

Nada mais sem fundamentação teórica que as palavras acima. Um olhar ligeiro sobre a conjuntura política mostra a impostura de afirmações que não encontram o mais leve respaldo empírico na história recente. Mas uma perguntinha inconveniente surge no cipoal da insensatez. Quem, através de cobertura negativa, tem desgastado a imagem do parlamento? Quem detém o monopólio da produção simbólica do desprestígio? Quem, em suma, quer libertar a besta fera? Respostas para as redações. E, em se tratando do eixo Rio-São Paulo, nunca esquecendo a RBS, no sul do país, qualquer uma será excelente destinatária.



(*)Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, e colaborador do Jornal do Brasil e Observatório da Imprensa.

enviada por Arlindo



03/10/2007 16:50

SONHO IMPOSSÍVEL?

Art Buchwald

A boa vontade é algo contagioso; esse artigo explica porquê.
Recentemente fui à cidade e peguei um táxi com um amigo meu. Quando chegamos, meu amigo disse para o motorista:
"- Muito obrigado; você guia muito bem."
O motorista do táxi ficou estupefato por um segundo. Então, disse.
"- Está querendo me gozar, meu chapa?"
"- Não, meu caro, de jeito nenhum. Admiro a forma como você consegue ficar calmo no meio desse trânsito todo".
"- Falou", disse o motorista, e foi embora.
"- Mas, que conversa era essa?!" indaguei, meio perplexo.
“- Estou tentando trazer o amor de volta"; disse ele. "É a única coisa que pode salvar essa cidade."
"- E como é que um homem só, pode salvar essa cidade"?
"- Não é um homem só. Acho que fiz esse motorista de táxi ganhar o dia. Suponha que ele vá pegar mais uns 20 ciientes. Vai ser simpático com eles porque alguém foi simpático com ele, também. Aí, esses clientes vão ser mais amáveis com os seus empregados, com os balconistas das lojas, até mesmo, com seus próprios parentes. Estes, por sua vez, serão mais simpáticos com as outras pessoas. Eventualmente, essa atmosfera de boa vontade pode se alastrar e atingir, pelo menos, umas mil pessoas. Nada mal. Não acha?"
"- Mas, você está dependendo desse motorista, para transmitir sua boa vontade aos outros."
"- Não estou", disse meu amigo. "Estou ciente de que o sistema não é infalível. Hoje, sou capaz de contatar com 10 pessoas diferentes. Se, em cada 10, conseguir fazer três felizes, então, posso acabar influenciando, indiretamente, o comportamento de três mil pessoas ou mais."
"- Parece boa idéia", admiti, "mas não estou certo de que dá resultado."
"- Se não der, não se perde nada. O fato de dizer àquele homem que estava fazendo um bom trabalho não me roubou tempo nenhum. Qual o problema, se ele não ligou? Amanhã haverá outro motorista de táxi par eu elogiar."
"- Acho que você está meio pirado", disse eu.
"- Isso demonstra o quanto você se tornou cético. Fiz um estudo a esse respeito Por exemplo: que é que falta, além de dinheiro, evidentemente, aos empregados dos correios? É que alguém lhes diga que estão fazendo um bom trabalho."
"- Mas, eles não estão fazendo um bom trabalho!"
"- Eles não estão fazendo um bom trabalho, porque sentem que ninguém se interessa se fazem ou não. Por que é que ninguém lhes faz um elogio?"
Estávamos passando por um prédio em construção e cruzamos com cinco operários que estavam na folga do almoço. Meu amigo parou.
"- Vocês têm feito um excelente serviço. Deve ser um trabalho difícil e perigoso."
Os cinco homens olharam-no, meio desconfiados.
"- Quando é que esse prédio vai ficar pronto?
"- Em outubro, resmungou um deles.
"- Ah! Isso é fantástico. Vocês devem estar bem orgulhosos!"
Afastamos-nos.
"- Não conheço ninguém como você!" disse-lhe eu.
"- Quando esses homens pensarem nas minhas palavras, vão se sentir muito melhor. e a cidade vai se beneficiar da felicidade deles."
"- Mas, você não pode fazer isso, sozinho!" protestei. "Você é só um!"
"- O mais importante é não nos deixarmos desencorajar. Não é fácil fazer com que os habitantes da cidade voltem a ser amáveis, mas se conseguir convencer outras pessoas a aderirem à minha campanha..."
"- Você acaba de piscar o olho a uma mulher bem feiosa", disse eu.
"- Eu sei", replicou. "Se ela for uma professora, seus alunos vão ter um dia fantástico! Já Pensou?"


FIM

enviada por Arlindo



27/09/2007 12:16

A armadilha do PSDB





Da redemocratização para cá, o PSDB foi o partido que juntou os melhores quadros técnicos do país. Tinha, em suas hostes, intelectuais, pensadores, bons gestores, quadros técnicos, uma imagem progressista de centro-esquerda e de responsabilidade fiscal.

Quando Fernando Henrique Cardoso assumiu o governo, comprometeu profundamente a imagem progressista do partido, ao se definir pelo modelo de financeirização da economia, cujos representantes eram Pedro Malan e Gustavo Franco.

Mesmo assim, supunha-se que, a partir do ocaso de FHC, o posto pudesse ser ocupado por quadros mais comprometidos ou com desenvolvimento (como José Serra) ou com gestão e tolerância (Aécio Neves). Mas que não perdesse jamais as características de social-democracia que foram a sua marca – e que lhe permitiram empalmar a utopia do crescimento com responsabilidade social.

Nos últimos dois anos, especialmente após a derrota para Lula, nas últimas eleições, o partido perdeu o rumo. Internamente, não conseguiu se decidir entre os representantes do mercadismo – Malan, Arthur Virgílio, Tasso – e os chamados desenvolvimentistas – Serra, Bresser, Nakano. O fantasma de FHC continuou pairando sobre ele, como um ectoplasma insepulto.

Pior, com a derrota, com um candidato fraquíssimo – Geraldo Alckmin - que, a rigor, nada representava de novo no cenário político nacional, sem visão estratégica, o PSDB perdeu o discurso e está embarcando em uma armadilha mortal: o macartismo mais canhestro que tomou conta da chamada grande mídia. É inacreditável como lideranças com passado e história, acabaram aceitando esse jogo simplificador e errado.
Será que, ao propor o índex ao livro de história (escolhido na sua gestão), o ex-Ministro Paulo Renato de Souza não se deu conta da maneira como sua atitude repercutiu em sua base, em seus colegas de Universidade? E não apenas ele. Teoricamente Paulo Renato representava a parcela civilizada do PSDB.

Não se entendeu o Bolsa Família

Há vários problemas nesse jogo. O primeiro, é que essa estratégia, típica da ausência de discurso, parte de um diagnóstico incorreto sobre o segundo governo Lula. O governo Lula é muito pior do que Lula pensa; mas muitíssimo melhor do que seus adversários julgam. A estratégia da desqualificação continuada é burra.

No ano passado, esses Mrs. Magoos, ceguetas, não conseguiram entender o alcance do Bolsa Família. Bastava uma análise mais aprofundada para entender que o Bolsa Família não era aquela bobagem amadora do “Fome Zero”. O trabalho de Patrus Ananias foi de alto nível, com tratamento sofisticado de indicadores e bancos de dados e uma competência metodológica que, em breve, se tornaria modelo.

Não se entendeu o PAC

Do mesmo modo, não entenderam o que significou o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento). Nos primeiros dias após o lançamento, chamei a atenção aqui que se tratava de um modelo novo de gestão de investimentos públicos que, primeiro, mudaria o viés puramente financista do governo; segundo, permitiria um aumento expressivo da capacidade de gestão de investimento assim que os obstáculos fossem removidos.

Não era mero achismo. Bastava ter olhos para analisar a estrutura de anéis de avaliação de programas que estavam sendo montados nos diversos ministérios, a metodologia de acompanhamento e identificação de problemas para se ter a certeza de que, passada a fase inicial de superação de problemas estruturais, o PAC dispararia como um foguete. Isso vai acontecer a partir do próximo ano.

Não se entendeu o CDES

Finalmente, o modelo de ascultar a sociedade, através do CDES (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social), começa a frutificar (veja, a propósito, a Coluna Econômica de amanhã).

Significa que o governo Lula é excepcional? Não. Significa apenas que os diagnósticos sobre ele, com essas desqualificações primárias e preconceituosas, estão errados. Sem um diagnóstico preciso, cai-se na crítica vazia. Pior que isso: embarca-se de carona nesse discurso direitista que, não raras vezes, resvala para o mais puro esgoto e macartismo, como essa inacreditável campanha contra o livro didático.

Armadilha mortal

Hoje em dia o partido se aliou à pior ala do PM (Partido da Mídia). Só que, ao endossar acriticamente esse discurso ultra-direitista e intolerante, o partido altera radicalmente sua essência. Perde a condição de criar uma utopia defensável, uma alternativa legítima ao governo Lula, deixa de agregar novos quadros.

A cada dia que passa, mais o PSDB parece ter a cara da “Veja”. É de causar pesadelos a quem julgava que, depois da eleição de Lula, finalmente o jogo político iria amadurecer - com o processo de amadurecimento do PT, não mais oposição.

Não adianta seus candidatos tentarem mudar o discurso no último ano antes das próximas eleições. A marca já estará muito comprometida para permitir recauchutagem.

Está na hora de dar uma parada nessa marcha da insensatez. O pior que poderia acontecer seria a liquidação antecipada da única alternativa de governo que o país dispõe.







enviada por Luis Nassif
enviada por Arlindo



26/09/2007 11:33

30 dicas para escrever bem

Atribuídas ao Professor João Pedro da UNICAMP


1. Deve evitar ao máx. a utiliz. de abrev., etc.

2. É desnecessário fazer-se empregar de um estilo de escrita demasiadamente rebuscado. Tal prática advém de esmero excessivo que raia o exibicionismo narcisístico.

3. Anule aliterações altamente abusivas.

4. não esqueça as maiúsculas no início das frases.

5. Evite lugares-comuns como o diabo foge da cruz.

6. O uso de parênteses (mesmo quando for relevante) é desnecessário.

7. Estrangeirismos estão out; palavras de origem portuguesa estão in.

8. Evite o emprego de gíria, mesmo que pareça nice, sacou??... então valeu!

9. Palavras de baixo calão, porra, podem transformar o seu texto numa merda.

10. Nunca generalize: generalizar é um erro em todas as situações.

11. Evite repetir a mesma palavra pois essa palavra vai ficar uma palavra repetitiva. A repetição da palavra vai fazer com que a palavra repetida desqualifique o texto onde a palavra se encontra repetida.

12. Não abuse das citações. Como costuma dizer um amigo meu: "Quem cita os outros não tem idéias próprias".

13. Frases incompletas podem causar

14. Não seja redundante, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes; isto é, basta mencionar cada argumento uma só vez, ou por outras palavras, não repita a mesma idéia várias vezes.

15. Seja mais ou menos específico.

16. Frases com apenas uma palavra? Jamais!

17. A voz passiva deve ser evitada.

18. Utilize a pontuação corretamente o ponto e a vírgula pois a frase poderá ficar sem sentido especialmente será que ninguém mais sabe utilizar o ponto de interrogação.

19. Quem precisa de perguntas retóricas?

20. Conforme recomenda a A.G.O.P, nunca use siglas desconhecidas.

21. Exagerar é cem milhões de vezes pior do que a moderação.

22. Evite mesóclises. Repita comigo: "mesóclises: evitá-las-ei!" Evite Jânio Quadros. Fi-lo porque qui-lo.

23. Analogias na escrita são tão úteis quanto chifres numa galinha.

24. Não abuse das exclamações! Nunca!!! O seu texto fica horrível!!!!!

25. Evite frases exageradamente longas pois estas dificultam a compreensão da idéia nelas contida e, por conterem mais que uma idéia central, o que nem sempre torna o seu conteúdo acessível, forçam, desta forma, o pobre leitor a separá-la nos seus diversos componentes de forma a torná-las compreensíveis, o que não deveria ser, afinal de contas, parte do processo da leitura, hábito que devemos estimular através do uso de frases mais curtas.

26. Cuidado com a hortografia, para não estrupar a língúa portuguêza.

27. Seja incisivo e coerente, ou não.

28. Não fique escrevendo (nem falando) no gerúndio. Você vai estar deixando seu texto pobre e estar causando ambigüidade, com certeza você vai estar deixando o conteúdo esquisito, vai estar ficando com a sensação de que ascoisas ainda estão acontecendo. E como você vai estar lendo este texto, tenho certeza que você vai estar prestando atenção e vai estar repassando aos seus amigos, que vão estar entendendo e vão estar pensando em não estar falando desta maneira irritante.

29. Outra barbaridade que tu deves evitar chê, é usar muitas expressões que acabem por denunciar a região onde tu moras, carajo!... nada de mandar esse trem... vixi... entendeu bichinho?

30. Não permita que seu texto acabe por rimar, porque senão ninguém irá agüentar já que é insuportável o mesmo final escutar, o tempo todo sem parar.
enviada por Arlindo



25/09/2007 23:48

Assembléia do MSM - Premissas


P.O.M.M.

A sigla acima resume quatro tópicos sobre os quais é preciso refletir para sairmos do campo das sugestões sobrepostas para o das ações efetivas.

Convoquei a Assembléia do dia 13 porque não me sinto confortável dizendo aqui como as coisas têm que ser ou deixar de ser. E um movimento não pode ser de um homem só, baseado nas ações de um homem só, no incentivo de um homem só. É preciso que as pessoas se comprometam. Reclamar, mandar e-mails, citar casos de más condutas da mídia, enfim, espernear, ou, simplesmente, sugerir e sugerir, não mudará nada. É preciso dar passos, tomar atitudes concretas. A internet é só um meio de mobilização, não um campo de luta.

Recebo dezenas de sugestões por dia. Acho bom que as pessoas tenham idéias, mas idéias precisam ser postas em prática. Lançá-las ao vento sem nos comprometermos com sua execução, não adianta.

Para darmos novos passos, pensei em quatro tópicos para nos concentrarmos – as idéias simples são fundamentais nos momentos de arrancada, pois excesso de preparação e de discussão posterga e, depois, acaba inviabilizando ações concretas.

Vejam, então, o que quer dizer a sigla P. O. M. M.

(P)rincípios

É preciso definir o que aceitamos ou não em termos de conduta e imagem do Movimento. Minhas opiniões são as seguintes:

1 – Apartidarismo. Muita gente sabe como é ruim a mídia, mas não quer se envolver com política partidária. Se for para defender ou criticar políticos, melhor a pessoa se filiar a um partido e militar nele. Ou até criar um partido.

2 – Civilidade. Defender o ideal de uma mídia Republicana, voltada para o interesse coletivo, sempre com veemência, mas sempre de forma pacífica, ordeira e civilizada, abrindo mão de usar insultos em lugar de argumentos.

3 – Engajamento, pois se ninguém se dispuser a sacrificar nada, como um feriado ou um compromisso social a fim de dar sentido àquilo em que acredita, é melhor continuar cuidando só da própria vida, pois nosso movimento é em prol do coletivo, é uma iniciativa de abnegados que se propõem a lutar pelo interesse de todos.

4 – Pluralidade. Ninguém deve ser discriminado por pertencer a um partido ou a qualquer organização legalizada e legítima. Por que alguém que não gosta do mesmo partido que prefiro não pode se engajar numa luta por meios de comunicação melhores? Se você é do PT ou do PFL ou de qualquer outro partido, mas está insatisfeito com a mídia, seu lugar é conosco.

(O)bjetivos

1 - O objetivo do MSM não é político, é de interesse público. A comunicação de massas é um instrumento muito poderoso para ser manuseado como querem meia dúzia de cabeças de empresários do setor de comunicações. Eles podem e devem explorar comercialmente esse “filão”, pois geram empregos e impostos, mas devem se pautar pelo respeito a todos os pontos de vista. Não podem usar esse poder para fazerem prevalecer suas idiossincrasias políticas, ideológicas e seus interesses econômicos. Sobretudo se forem detentores de concessões públicas como são os donos da mídia eletrônica.

2 – É preciso, pois, fazer a sociedade entender que os atuais donos da grande mídia não são abnegados que administram suas empresas de comunicação como se fossem instituições benemerentes. Por isso, é preciso informar a sociedade de que deve exigir deles que divulguem sempre os dois lados da moeda e que permitam que tudo que informam venha acompanhado de ponto e contraponto. Essa coisa de dizerem que os “crimes” de um partido são mais graves do que os de outros e que, por isso, estão se concentrando naquele partido, não passa do estelionato intelectual mais deslavado que existe.

3 – É preciso demonstrar à sociedade quão ruim é, por exemplo e sobretudo, a programação televisiva. Lixos culturais como os que infestam a programação de domingo na tevê, ou os programas mundo-cão, ou a utilização de concessões públicas para defender interesses privados, político-partidários, econômicos ou ideológicos são uma afronta que precisa ser denunciada. As pessoas têm que saber que pagam impostos para que a Globo, por exemplo, possa colocar um Arnaldo Jabor para criticar “esquerdistas”, como se ser esquerdista fosse crime. Se o patrão do Jabor não gosta de esquerdistas, que vá falar para os amigos dele. Não pode é ficar falando suas idiossincrasias para todos às custas de uma concessão pública.

4 – Denunciar tudo isso pela internet ou no boca a boca, todo mundo está cansado de saber que não funciona. As denúncias têm que ser feitas de forma que chamem atenção e que tornem desgastante a mídia escondê-las. Assim foi com a Folha. O ato que fizemos diante dela TEVE que ser noticiado, ainda que por meio de uma notinha. Agora, alguém acha que conseguiríamos a repercussão que conseguimos se não tivéssemos ido à rua protestar? E alguém duvida de que se tivéssemos nos portado como trogloditas, a mídia nos daria espaço, sim, mas para nos acusar? Não pode, porque nos portamos como gente civilizada que somos. Por isso teve que nos esconder.

(M)eios

1 – Para atingir esses objetivos, não bastam blogs e e-mails. Para fazer o Movimento crescer, precisamos divulgá-lo. A mídia alternativa até funciona um pouco, mas já imaginaram uma matéria paga num jornal ou um outdoor com algumas pessoas idênticas vestindo camisetas tendo estampados nelas os nomes dos grandes veículos de comunicação que adotam o que o Luis Nassif chama de “jurisprudência” jornalística? Essa “jurisprudência” significa que todos esses veículos decidem em uníssono que posição adotar sobre este ou aquele assunto e passam a esmagar divergências. É preciso dar forma, dar imagem a essa conduta.

2 – Se queremos organizar o MSM no país inteiro, o núcleo executivo que for constituído terá que viajar ou, ao menos, enviar um representante para organizar o movimento em outros Estados. Isso gerará um fato político e incentivará o comparecimento das pessoas. Se este movimento vingar, eu me apresentarei para ir a cada parte do país divulgar o que estamos fazendo. Eu sabia que precisaríamos de alguém que desse a cara a tapa e por isso tenho dado todas essas entrevistas, expondo minha vida pessoal dessa forma, porque sei que sem um símbolo essa coisa não avança. Os resultados de tudo isso para minha vida particular poderão ser nefastos por muito tempo. Não sou herói nem nada, mas tive que decidir se faria alguma coisa para o MSM germinar ou não, pois sem que fizesse, nada aconteceria. Até pensei, quando aceitaram minha proposta naquele post em que vos convoquei, em retroceder. Não sei por que não fiz. Talvez ainda venha a me arrepender muito, mas agora é tarde.

Em resumo, gente: para lograrmos todos esses objetivos, precisaremos de recursos. Não basta uma pessoa contribuir. Precisamos de uma receita. Aqueles que dizem querer se filiar ao movimento, precisam amealhar doações. Se cada um dos que já disseram que se filiarão conseguirem mais dois filiados que contribuam com o dinheiro de um sanduíche todo mês, obteremos êxito. Com mil filiados, a dez reais de contribuição mensal cada um, arrecadamos dez mil reais por mês. Isso basta para fazermos o Movimento andar. Ora, vocês viram a lista dos simpatizantes do movimento. São médicos, advogados, professores, engenheiros, meu Deus. Será que alguma dessas pessoas não conseguiria mais duas ou três pessoas insatisfeitas com a mídia que possam gastar o dinheiro de quatro maços de cigarro?

(M)étodos

1 – É preciso chamar atenção. E só chama atenção quem se expõe. Por isso, precisamos ir às ruas. Sobretudo para diante dos meios de comunicação. Vou lhes contar agora uma coisa que ia guardar comigo mais um pouco: estive, no fim de semana, nas imediações da Folha. Perguntei a comerciantes e pessoas da região se viram a manifestação que fizemos e se se interessaram em comprar o jornal no dia seguinte para ver se ele tinha noticiado ou escondido. Encontrei pessoas bestificadas por a Folha ter escondido o que aconteceu. A maioria não achou aquela notinha. Outras pessoas ficaram indignadas com o número de 90 pessoas que a Folha disse que estavam lá. Só encontrei um que achou que o jornal não deveria nem dar a notinha.

2 – Publicidade também é primordial, como eu disse acima. É preciso que as pessoas saibam que existe gente que se diz sem-mídia e que tem argumentos e provas de que não tem mesmo mídia. Mas para que as pessoas saibam disso, é preciso informá-las. E a mídia não vai informar; vai esconder. Só que, se conseguirmos, mais adiante, algumas doações mais consistentes, poderíamos espalhar outdoors, por exemplo. As pessoas que compõem o Movimento dos Sem-Mídia são pessoas que podem, sim, conseguir apoios, pois não são gente humilde e sem relações como, por exemplo, os sem-terra, que são taxados de bandidos e não têm como se defender.

Este é só um exercício das discussões que pretendo levar à Assembléia do dia 13. Mas, mais do que discussões, pretendo levar a exortação às pessoas para que se engajem de verdade no Movimento, que se comprometam. Oferecerei meus préstimos para continuar atraindo mídias com meus textos e até me expondo, dando entrevista, o que for necessário, até porque não dá mais para retroceder. Mas pedirei que cada um faça alguma parte também, pois eu sou só um homem, com tantos problemas e compromissos quanto qualquer um.

Escrito por Eduardo Guimarães às 21h08
enviada por Arlindo



24/09/2007 22:46
Movimento dos Sem Mídia
Amigos,
Estou disponibilizando esse espaço para discutirmos a criação do MSM em MG. Leiam o manifesto abaixo e façam uma visita ao blogue Cidadania.com do Eduardo Guimarães, o mentor dessa brilhante idéia, em http://edu.guim.blog.uol.com.br/

Manifesto dos Sem-Mídia

Vivemos um tempo em que a informação se tornou tão vital para o homem que passou a integrar o arcabouço de seus direitos fundamentais. Defender a boa qualidade da informação, pois, é defender um dos mais importantes direitos fundamentais do homem. É por isso que estamos aqui hoje.

No transcurso do século XX, novas tecnologias geraram o que se convencionou chamar de mídia, isto é, o conjunto de meios de comunicação em suas variadas manifestações, tais como a secular imprensa escrita, o rádio, o cinema, a televisão e, mais recentemente, a internet. Essa mídia, por suas características intrínsecas e por suas ações extrínsecas, tornou-se componente fundamental da estrutura social, formada que é por meios de comunicação de massa.

Em todas as partes do mundo - mas, sobretudo, em países continentais como o nosso -, quem tem como falar para as massas controla um poder que, vigendo a democracia, equipara-se aos Poderes constituídos da República. E, vez por outra, até os suplanta. Essa realidade pode ser constatada pela simples análise da história de regiões como a América Latina, em que o poder dos meios de comunicação logrou eleger e derrubar governos, aprovar leis ou impedir sua aprovação, bem como moldar costumes e valores das sociedades. Contudo, há fartura de provas de que, freqüentemente, esse descomunal poder não foi usado em benefício da maioria.

Não se nega, de maneira alguma, que as mídias, sobretudo a imprensa escrita, foram bem usadas em momentos-chave da história, como nos estertores da ditadura militar brasileira, quando a pressão (tardia) de parte dessa imprensa ajudou a pôr fim à opressão de nossa sociedade pelo regime dos generais. Todavia, é impossível ignorar que a ditadura foi imposta ao país graças, também, à mesma imprensa que hoje vocifera seus neo pendores democráticos, nascidos depois que sua recusa pretérita de aceitar governos eleitos legitimamente atirou o país naquela ditadura de mais de vinte anos.

O lado perverso da mídia também se deve, por contraditório que possa parecer, à sua natureza privada, uma natureza que também é - ou deveria ser - uma de suas virtudes. Nas mãos do Estado, a mídia seria uma aberração, mas quando é pautada exclusivamente por interesses privados, seu lado obscuro emerge tanto quanto ocorreria na primeira hipótese, pois um poder dessa magnitude acaba sendo usado por diminutos grupos de interesse. Nas duas situações, quem sai perdendo é a coletividade, pois o interesse de poucos acaba se sobrepondo ao de todos.

A submissão da mídia ao poder do dinheiro é um fato, não uma suposição. Os meios de comunicação privados nada mais são do que empresas que visam lucro e, como tais, sujeitam-se a interesses que, em grande parte das vezes, não são os da coletividade, mas os de grandes e poderosos grupos econômicos. Estes, pelo poder que têm de remunerar o “idealismo” que lhes convêm, cada vez mais vão fazendo surgir jornalistas dispostos a produzir o que os patrões requerem, e o que requerem, via de regra, é o mesmo que aqueles grupos econômicos, o que deixa a sociedade desprotegida diante da voracidade daqueles que podem (?) esmagar divergências simplesmente ignorando-as.

É nesse ponto que jornalistas e seus patrões contraem uma união estável com facções políticas e ideológicas que não passam de braços dos interesses da iniciativa privada, dos grandes capitais nacionais e transnacionais, do topo da pirâmide social. E a maioria da sociedade fica órfã, indefesa diante do poder dos de cima de alardearem seus pontos de vista como se falassem em nome de todos.

Agora mesmo, na crise que vive o Senado Federal, vemos os meios de comunicação alardearem uma suposta "indignação nacional" com o presidente daquela Casa. Esses meios dizem que essa indignação é "da opinião pública", apesar de que a maioria dos brasileiros certamente está pouco se lixando para a queda de braço entre o presidente do Congresso e a mídia. Nesse processo, a "indignação" de meia dúzia de barões da mídia é apresentada como se fosse a "da opinião pública".

O poder que a mídia tem - ou pensa que tem - é tão grande, que ela ousa insultar a ampla maioria dos brasileiros, maioria que elegeu o atual governo. A mídia insulta a maioria dizendo que esta tomou a decisão eleitoral que tomou porque é composta por "ignorantes" que se vendem por "bolsas-esmola". Retoma, assim, os fundamentos do voto censitário, que vigeu no alvorecer da República, quando, para votar, o cidadão precisava ter um determinado nível de renda e de instrução. E o pior, é que a teoria midiática para explicar por que a maioria da sociedade não acompanhou a decisão eleitoral dos barões da mídia, esconde a existência de cidadãos como estes que aqui estão, que não pertencem a partidos, não recebem "bolsas-esmola" e que, assim mesmo, não aceitam que a mídia tente paralisar um governo eleito por maioria tão expressiva criando crises depois de crises.

É óbvio que a mídia sempre dirá que suas tendências e pontos de vista coincidem com o melhor interesse do conjunto da sociedade. Dirá isso através da confortável premissa (para os beneficiários preferenciais do status quo vigente) de que as dores que a prevalência dos interesses dos estratos superiores da pirâmide social causa aos estratos inferiores, permitirão a estes, algum dia, ingressarem no jardim das delícias daqueles. É a boa e velha teoria do “bolo” que precisa primeiro crescer para depois ser dividido.

Os meios de comunicação sempre tomaram partido nos embates políticos. Demonizam políticos e partidos que grupos de interesses políticos e econômicos desaprovam e, quando não endeusam, protegem os políticos que aqueles grupos aprovam. Isso está acontecendo hoje em relação ao governo federal e à sua base de apoio parlamentar, por um lado, e em relação à oposição a esse governo e a seus governos estaduais e municipais, por outro. Resumindo: a mídia ataca o governo central em benefício de seus opositores.

Os meios de comunicação se defendem dizendo que atacam o governo central também porque ele nada faz de diferente - ou de melhor - do que fazia a facção política que governava antes, e diz, ainda por cima, que o atual governo produz "mais corrupção". Alguns veículos, mais ousados, acrescentam que os que hoje governam favorecem mais o capital do que seus antecessores. Outros veículos, mais dissimulados, ainda adotam um discurso quase socialista ao criticarem os lucros dos bancos e o cumprimento dos contratos que o governo garante. A mídia chega a fazer crer que apoiaria esse governo se ele fizesse despencar a lucratividade do sistema bancário e se rompesse contratos. Faz isso em contraposição ao que dizia dos políticos que agora estão no poder, porém no tempo em que estavam na oposição, ou seja, dizia que não poderiam chegar ao poder porque, lá chegando, descumpririam contratos e prejudicariam o sistema bancário...

A mídia brasileira garante que é “isenta”, que não é pautada por ideologias ou por interesses privados, e que trata os atuais governantes do país como tratou os anteriores. Não é verdade. Bastaria que nos debruçássemos sobre os jornais da época em que os que hoje se opõem ao governo federal estavam no poder e comparássemos aqueles jornais com os de hoje. Veríamos, então, como é enorme a diferença de tratamento. Nunca a oposição ao governo federal foi tão criticada pela mídia quanto na época em que os que hoje estão no governo, estavam na oposição; nunca o governo foi tão defendido pela mídia quanto era na época em que os que hoje estão na oposição, estavam no governo.

Não é preciso recorrer a registros históricos para comprovar como os pesos e medidas da mídia diferem de acordo com a facção política que ocupa o poder. Basta, por exemplo, comparar a forma como os jornais paulistas cobrem o governo do Estado de São Paulo com a forma como cobrem o governo do país.

A mesma facção política governa São Paulo há mais de uma década. Nesse período, o Estado foi tomado pelo crime organizado. A Saúde pública permanece - ou se consolida - como um verdadeiro caos, apesar das novas tecnologias e da enorme quantidade de recursos que transitam por São Paulo. A Educação pública permanece como uma das piores do país a despeito da pujança econômica paulista. Assim, começaram a eclodir desastres nunca vistos na locomotiva do Brasil que é São Paulo.

Ano passado, uma organização criminosa aterrorizou este Estado. Essa organização nasceu e se fortaleceu dentro dos presídios controlados pelo governo paulista. A Febem, destinada a recuperar jovens criminosos, consolidou-se como escola de crimes, e as prisões para adultos alcançaram o status de faculdades do crime. No início deste ano, uma rua inteira ruiu por causa de uma obra da linha quatro do metrô paulistano, administrado pelo governo paulista. Várias pessoas morreram. Foi apenas mais um entre muitos outros acidentes que ocorreram nas obras do metrô de São Paulo e a mídia não noticia nada disso, o que lhe deixa escandalosamente óbvio o intuito de proteger o grupo político que governa o Estado mais rico da Federação e que se opõe ferozmente ao governo federal.

A mídia exige CPIs para cada suspeita que a oposição levanta sobre o governo federal, mas não diz uma palavra de todos os escândalos envolvendo o governo de São Paulo. Omite-se quanto à violação dos direitos das minorias parlamentares na Assembléia Legislativa paulista, violação perpetrada pelas maiorias governistas, maiorias que nos últimos anos enterraram dezenas de pedidos de investigação do governo paulista, controlado por políticos que estão entre os que mais exigem investigações sobre o governo federal.

Seria possível passar dias escrevendo sobre tudo o que a imprensa paulista deveria cobrar do governo do Estado de São Paulo, mas não cobra. Ler um jornal impresso em São Paulo ou assistir a um telejornal produzido aqui só serve para tomar conhecimento do que faz de ruim - ou do que a mídia diz que faz de ruim - o governo federal. Dificilmente se encontra informações sobre o governo paulista, e críticas, muito menos. O desastre causado pela obra da linha quatro do metrô paulistano, por exemplo, foi coberto pela mídia, mas por pouco tempo - questão de dias. Depois, o assunto desapareceu do noticiário e nunca mais voltou. Dali em diante, a mídia passou a esconder e a impedir qualquer aprofundamento no caso, fazendo com que a sociedade permaneça sem satisfação quase nove meses depois da tragédia. Mas o "caos aéreo" não sai da mídia um só dia já há quase um ano.

Assim é com tudo que diga respeito a políticos e partidos dos quais a imprensa paulista gosta. E o mesmo se reproduz pelo país inteiro. A mídia carioca, a mídia baiana, a mídia gaúcha, as mídias de todas as partes do país fazem o mesmo que a paulista, pois todas são uma só, obedecem aos mesmos interesses, controladas que são por um número ridiculamente pequeno de famílias "tradicionais", por uma oligarquia que domina a comunicação no Brasil desde sempre.

O lado mais perverso desse processo é o de a mídia calar divergências. Cidadãos como estes que assinam este manifesto são tratados pelos grandes meios de comunicação como se não existissem. São os sem-mídia, somos nós que ora manifestamos nosso inconformismo. Muito dificilmente é dado espaço pela mídia para que quem pensa como nós possa criticar o seletivo moralismo midiático ou as facções políticas amigas dos barões da mídia. A quase totalidade dos espaços midiáticos é reservada àqueles que concordam com os grandes meios de comunicação. Jornalistas que ousam discordar, são postos na "geladeira". A mídia impõe uma censura branca ao país. Isso tem que parar.

Claro precisa ficar que os cidadãos que assinam este manifesto não pretendem, de forma alguma, calar a mídia. Os que qualificam qualquer crítica a ela como tentativa de calá-la, agem com má-fé. É o contrário, o que nos move. O que pedimos é que a mídia fale ou escreva muito mais, pois queremos que fale ou escreva tudo o que interessa a todos e não só aquilo que lhe interessa particularmente e àqueles que estão ao seu lado, pois a mídia tem lado, sim, apesar de dizer que não tem, e esse lado não é o de todos e nem, muito menos, o da maioria.

Mais do que um direito, fiscalizar governos, difundir idéias e ideologias, é obrigação da mídia. Assim sendo, os signatários deste manifesto em nada se opõem a que essa mesma mídia critique governo nenhum, facção política nenhuma, ideologia de qualquer espécie. O que nos indigna, o que nos causa engulhos, o que nos afronta a consciência, o que nos usurpa o direito de cidadãos, é a seletividade do moralismo político midiático, é o sufocamento da divergência, é o soterramento ideológico de corações e mentes.

Por tudo isso, os signatários deste manifesto, fartos de uma conduta dos meios de comunicação que viola o próprio Estado de Direito, vieram até a frente desse jornal dizer o que ele e seus congêneres teimam em ignorar. Viemos dizer que existimos, que todos têm direito de ter espaço para seus pontos de vista, pois a mídia privada também se alimenta de recursos públicos, da publicidade oficial, e, assim sendo, tem obrigação de não usar os amplos espaços de que dispõe como se deles proprietária fosse. Seu papel, seu dever é o de reproduzir os diversos matizes políticos e ideológicos, de forma que o conjunto da sociedade possa tomar suas decisões de posse de todos os fatos e matizes opinativos.

Em prol desse objetivo, hoje está sendo fundado o Movimento dos Sem-Mídia. Trata-se de um movimento que não está cansado de nada, pois mal começou a lutar pelo direito humano à informação correta, fiel, honesta e plural. Aqui, hoje, começamos a lutar pelo direito de todos os segmentos da sociedade de terem como expor suas razões, opiniões e anseios e de receberem informações em lugar desse monstrengo híbrido - gerado pela promiscuidade entre a notícia e a opinião - que a mídia afirma ser "jornalismo".


São Paulo, 15 de setembro de 2007.


Este Manifesto recebeu 422 assinaturas virtuais.

Para conhecer melhor o Movimento, entre no blogue Cidadania.com do Eduardo Guimarães http://edu.guim.blog.uol.com.br/
enviada por Arlindo



02/06/2007 20:11
Do Blog do MIno
(Mino Carta)

Mídia, guardiã da ética?

Será a mídia a guardiã da ética, anjo protetor do decoro, sentinela do Estado de Direito? Justificam-se vertiginosas dúvidas. No Brasil e no mundo, são poucos os órgãos midiáticos que ainda praticam o jornalismo à sombra dos velhos, insubstituíveis princípios: fidelidade canina à verdade factual, exercício desabrido do espírito crítico, fiscalização diuturna do poder onde quer que se manifeste.
A independência está em xeque sempre que os interesses do patrão e dos seus negócios, do poder político e econômico, obstam o cumprimento dessas regras. Ou, simplesmente, quando são atiradas à lata do lixo para atender as conveniências de uns e outros, ou de todos.
Há décadas avança o processo de afastamento do jornalismo do papel inicial de serviço público. No Brasil a rota é diversa daquela percorrida em outros países, em decorrência do nosso atraso, a nos manter em um tempo especial, suspenso, mas não equilibrado, entre Idade Média e contemporaneidade. São coetâneos, aqui, diretores de redação por direito divino e computadores da última geração.
Tomemos o exemplo da cobertura da mídia a respeito da Operação Navalha e do caso Renan Calheiros. Até parecerá, a olhos e ouvidos desavisados, que se trata de um balaio único de escândalos. São, porém, distintos. É bom que venham à tona, mas cada um deveria ser colocado no devido lugar. A denúncia, além de oportuna, é necessária, e agora é só esperar pela condenação dos culpados. No entanto, jornais, revistas e emissoras misturam tudo.
Chafurdam (oportuno, também, é evocar esse verbo) no denuncismo, no encalço da crise. Qualquer uma serve, desde que ponha em dificuldade o governo, ou tente pôr.
É um clássico da história do jornalismo nativo. A fúria midiática é, e foi, de mão só. Evitemos recuar demais, lembremos o mar de lama em que chafurdou (voltei ao verbo) Carlos Lacerda e sua UDN, até levar Getulio Vargas ao suicídio. E recordemos as campanhas anti-Juscelino, ou pró-Jânio Quadros, o fio desencapado da hora agarrado para impedir a eleição do general Lott.
Havia um ranço udenista até então. Mas quando se tratou, primeiro de torpedear a legítima posse de João Goulart depois da renúncia de Jânio, e menos de três anos depois de derrubá-lo, a mídia estabeleceu o consenso total, sonho dourado da nossa oligarquia. E convocou os gendarmes para o golpe de 1964, a terceira, imensa tragédia brasileira, depois da colonização predatória e da escravidão.
A mídia não hesitou na agressão ao Estado de Direito, e omitiu-se, e mentiu, 21 anos a fio, até o momento em que a ditadura fardada se esvaiu em seus próprios erros e contradições. A adesão à campanha das Diretas Já foi lenta e parcial, e ao cabo não houve jeito de escapar à rendição à vontade popular. Poucos, porém, enxergaram nas indiretas uma derrota.
Em 1989 o fio desencapado foi Fernando Collor, valia tudo contra o Sapo Barbudo. O novo presidente passou a exigir pedágios cada vez mais elevados, até a célebre CPI sem provas da corrupção denunciada pelo irmão. Não passaria de um chega-para-lá, não fosse o motorista Eriberto, que apresentou a demonstração inegável da ligação entre a Casa da Dinda e PC Farias. E então desencadeou-se a pantomina das manifestações pró-impeachment, orquestrada pela inefável Globo.
Depois, o apoio irrestrito e enamorado a Fernando Henrique Cardoso. Roberto Marinho acreditou cegamente na sua colunista Miriam Leitão, segundo quem a estabilidade, bandeira da campanha da reeleição, era donzela inviolável. Deu-se, contudo, o maior engodo da história eleitoral brasileira, 12 dias depois de empossado FHC desvalorizou o rublo, perdão, o real.
A mídia condescendeu, assim como ocorreu quando das privatizações de, no mínimo, duvidosa feitura. Quem sabe valesse perguntar o que pensam a respeito alguns dos mais atilados articuladores fernandistas. Digamos, o Mendonção, bem-posto cidadão escorado por filhos criativos. Ou André Lara Resende, que hoje vive em uma quinta em Portugal e monta em Londres na sela de cavalos conduzidos até lá de avião. Houve tempo em que os coronéis nativos levavam vacas para Paris, a fim de garantir leite matinal.
E a mídia? Impassível. Só emerge da expressão de Buster Keaton quando se trata de fazer campanha a favor de José Serra ou de Geraldo Alckmin. Contra Lula, ainda e sempre o Sapo Barbudo. E por aí o bombardeia, sem pausa ou refresco, por um ano e meio para verificar, finalmente, que as bombas caíram n’água.
Há quem diga que denunciar escândalos pode ser fenômeno promissor. Pensamento similar àquele de quem supõe que pena de morte reduz o número de assassínios. A mídia brasileira até hoje não traiu a si mesma e às suas tradições. Se há algo positivo neste quadro é a vitória exuberante de Lula no ano passado contra a mídia, antes de ser contra Alckmin.
Eles próprios, os jornalistas e seus donos, deveriam constatar que não chegam lá, ao contrário do ocorrido no século passado. Às vezes me pergunto se a mídia não cogitaria de substituir os partidos, em plena falência, ou se acredita que a substituição já se deu. Recomenda-se não deveriam esquecer que partidos se consolidam no voto. A julgar por 2006, convém à mídia repensar a si mesma.
enviada por mino
enviada por Arlindo



25/02/2007 11:57

O que os "jornalões" não publicam 2





Conforme noticiado pelo Novo Jornal, o governador Aécio Neves na
montagem de um esquema capaz de alavancar sua candidatura à Presidência da República vem utilizando, sem qualquer fiscalização, o patrimônio público de Minas Gerais. Isto porque tem contado com a omissão de parte da Assembléia Legislativa e da alta direção do Ministério Público mineiro.
Após utilizar-se das ações da Copasa, conforme matéria publicada pelo Novo Jornal em 19 de dezembro de 2006, intitulada “Aécio vende Copasa e investe no Rio”, transferindo para a empresa Capital Group International Inc., pertencente ao mesmo grupo econômico da Editora Abril e Folha de S. Paulo R$ 800 milhões em ações da Copasa agora através da Cemig monta a empresa RME – Rio Minas Energia Participações S/A, sem qualquer autorização legislativa para compra da concessionária de energia carioca Light, transferindo para os fundos credores da Rede Globo, GMAM Investment Founds Trust I, Foundations For Research, WRH Global Securities Pooled Trust, um crédito em ações de US$ 269 milhões, através do pagamento feito a maior que a quantidade de ações adquiridas na Bovespa pela RME – Rio Minas Energia Participações S/A, na operação de compra.
Este detalhe só é percebido se verificado o constante na folha 4 - II do parecer nº 06326/2006/RJ da Secretaria de Acompanhamento Econômico, do Ministério da Fazenda, que analisou e aprovou a transação. Lá consta que a RME-Rio Minas Energia Participações S/A adquiriu 75,40% da Light, embora tenha comprado e pago 79,57%, inclusive é esta a quantidade de ações constantes nas atas da Cemig que autorizaram a compra assim como é informado no próprio site da Light.
Esta diferença aparece apenas como uma operação (escrituração no pregão da bolsa) e só foi possível devido a diferença entre avaliação patrimonial da empresa (valor real com deságio) e o valor pago.
Trata-se, mais uma vez, da utilização da desonesta operação do “pagar a maior”, algo vulgarmente utilizado pelas empresas particulares para esconder ou desviar lucros, onde se compra nota fria.
Na compra da Light pela RME – Rio Minas Energia Participações S/A a contabilidade da operação da bolsa maquiou a fraude. Neste caso específico foram utilizados profissionais conhecidos no mercado de capitais pelo alto conhecimento neste tipo de jogada.
Além da Cemig ter constituído em sociedade com outras empresas particulares a RME – Rio Minas Energia Participações S/A sua participação é de apenas 25%.
A irregularidade na constituição da empresa é tão grande e insanável que a Junta Comercial e a Receita Federal, que fornece o CNPJ, não conseguem explicar como isto ocorreu, prometendo pronunciar-se só depois de uma profunda e detalhada investigação.
O que era para não deixar rastro acabou comprometendo toda operação, pois os credores da Rede Globo já tinham ajuizado um pedido de falência contra a empresa em Nova York, nos EUA. Desta forma, o pagamento da dívida teve que ser feita “por dentro da contabilidade da Globo”, o que acabou deixando rastro.
A certeza de impunidade do governador Aécio Neves é tão grande que ele aceitou a entrega da direção financeira da Light ao ex-presidente da empresa holding do grupo de comunicação Globo, Ronnie Vaz Moreira.
Esta e outras operações praticadas no “Novo Mercado” da Bovespa vem despertando a atenção da Receita Federal e de organismos financeiros internacionais que a início identificam o mesmo como uma grande lavanderia de dinheiro público.
A Justiça americana está pedindo explicações da origem do dinheiro utilizado pela Globo para pagamento do pedido de falência. Desta forma, é bem possível que o escândalo exploda de fora do Brasil para dentro, impedindo que o mesmo seja abafado. Evidente que esta é uma remota possibilidade, pois envolvidos nesta operação estão a estrutura de poder nacional e internacional.
O prejuízo do patrimônio público mineiro não para por ai. A Cemig assumiu na compra da Light uma dívida de US$ 1,5 bilhão.
Para realizar esta operação a elite da corrupção e da comprovada desonestidade do mercado de capitais foi escolhida pelo governador Aécio Neves para integrar a alta direção da Light. Basta citar os seguintes membros do conselho de administração da empresa: Ricardo Coutinho de Sena, diretor da concessionária Ponte S/A, denunciado pelo Ministério Público e processado na Justiça Federal de Niterói, estado do Rio de Janeiro, por simulação de empréstimo de US$ 9.500,000 milhões em paraíso fiscal das Bahamas, avalizado pela Construtora Camargo Correia, para remessa irregular de lucros para o exterior, conforme apurado pela Comissão de Fiscalização financeira da Câmara Federal.
Aldo Floris, conhecido no meio financeiro pela capacidade de fraudar preço de ações como no golpe que deu um prejuízo ao Bank of América no valor de R$ 185.000.000,00 milhões enviados irregularmente para fundos off-shore no exterior, conforme relatório da Receita Federal, por solicitação da Justiça Federal de Nova York. Este mesmo expert do mercado financeiro simulou uma carta de crédito de R$ 1 bilhão, na privatização da Telemar, conforme apurado no processo da Polícia Federal, que indiciou os dirigentes da Previ por crime na privatização do setor de telecomunicação em 1998, auge do governo tucano.
Gilberto Sayão da Silva, dirigente do conhecido Banco Pactual, onde em uma de suas menores práticas irregulares no mercado financeiro foi indiciado pela CVM, Processo Administrativo nº CVM RJ2005/3304.
Como se não bastasse, tem ainda acento neste conselho o ex-governador do Rio de Janeiro, ex-presidente do Banco do Estado da Guanabara e ex-ministro de Sarney, Raphael de Almeida Magalhães, eterno elo de ligação entre a família Neves e os Associados, pois seu pai Dario de Almeida Magalhães dirigiu a sede carioca dos Diários Associados quando Tancredo era presidente do Banco do Brasil, além de ter dirigido também o jornal Estado de Minas.
Como demonstrado, Aécio Neves montou um verdadeiro “esquema” na Light, especializado na prática de fraudes no mercado de capitais, como a cometida para pagar a dívida da Rede Globo de Televisão.
A montagem da empresa RME – Rio Minas Energia Participações S/A para a aquisição da Light por Aécio não aconteceu apenas para pagar esta dívida. Ela foi estratégica, pois ele estava impedido de fazer certas jogadas no setor energético através da Cemig porque ela é uma empresa estatal e, desta forma, sujeita a uma legislação mais rigorosa.
Sem dizer que qualquer movimentação maior na empresa poderia ser, porque não é fiscalizada pela Assembléia Legislativa de Minas Gerais, Ministério Público e Tribunal de Contas do Estado. Agora ele poderá fazê-lo sem dar qualquer satisfação a estas instituições.
Ocorre que Aécio cometeu um erro intransponível, porque a Cemig para associar-se em uma empresa de capital aberto como foi o caso da RME – Rio Minas Energia Participações S/A, ela teria que ter tido uma autorização da Assembléia Legislativa, o que ainda não ocorreu. A verdade é que os deputados mineiros não estão acostumados nem preparados para lidar com o profissionalismo da equipe montada por Aécio Neves.
A contrapartida
As negociações desenvolvidas para quitação da dívida da Globo no exterior foram feitas através do ex-presidente da Globo S/A, Ronnie Vaz Moreira, e incluem a posterior transferência e entrega da NET para que o grupo de Aécio Neves possa juntamente com a construtora Andrade Gutierrez, via Telemar, que adquiriu recentemente a Way, e uma série de empresas concessionárias de serviço a cabo do interior mineiro, montar um novo grupo de Comunicação, tendo como geradora local de programação a TV Alterosa.
A certeza da impunidade e de qualquer questionamento traz à tona uma situação escandalosa. Ou se não é escandalosa, como explicar que o principal executivo da Rede Globo, um conglomerado de empresas nas quais existem profissionais como o apresentador Faustão, que ganha mensalmente mais de R$ 1.000.000,00, onde apenas um comercial de 30 segundos em rede nacional no horário nobre custa em torno de R$ 180.000,00, possa largar seu emprego que, segundo versões do mercado, rendiam-lhe quase R$ 800.000,00 por mês fora participações, para assumir a diretoria financeira da Light ganhando R$ 11.000,00 por mês.
O valor total da negociação entre Aécio Neves e Rede Globo chegou a mais de US$ 1,5 bilhão, levando em conta o valor da dívida da Light assumida pela Cemig.
A negociação é tão perdulária que além do valor pago e de ter assumido R$ 1,5 bilhão de dívidas à Cemig, forneceu para a Light em 2006 energia no valor de R$ 399 milhões, conforme Balanço da Light de 2006, “notas explicativas”, Nota 16. E o pior. Sabem quando a Cemig receberá o pagamento? Em dezembro de 2013.
Esta prática sem dúvida criminosa está descapitalizando a Cemig e capitalizando a Ligth. Em português vulgar, a Cemig está passando por baixo do pano dinheiro para a Light.
Não estamos falando de uma transação desonesta entre duas empresas particulares. Estamos falando de uma empresa estatal, que representa o fornecimento para Minas de um insumo estratégico.
Realmente, tem que ser feitas as seguintes perguntas.
Onde está o Ministério Público Estadual e Federal?
Onde está a Polícia Federal?
Onde está o Ministério das Minas e Energia, a ANEEL?
Onde está a Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça?
Onde está a Assembléia Legislativa de Minas Gerais?
Onde está a Câmara Federal?
Onde está o Senado?
Onde está o Tribunal de Contas de Minas Gerais e o da União?
Por último cabe a pergunta. Ainda existe alguém honesto no serviço público brasileiro? Se tem, porque nada faz?
Voltemos ao assunto. Para dar seqüência ao “acordo” e viabilizar as futuras operações financeiras, para promover os demais pagamentos, o ex-presidente da Holding da Rede Globo, Ronnie Vaz Moreira, largou o cargo de maior poder no Brasil, depois da Presidência da Republica, transferindo-se estrategicamente para uma simples diretoria Financeira da Light, para ganhar uma remuneração mensal de R$ 11.000,00.
Como dito anteriormente, só este fato em outros tempos seria capaz de derrubar o governo, porém atualmente com o comprometimento das instituições das diversas esferas e instâncias do Poder com a corrupção, poucos estão dispostos a enfrentar o maior império de comunicação existente atualmente no país.
A renegociação da dívida da Rede Globo com seus credores estende-se por quase cinco anos, período igual ao que Aécio imagina ser necessário para chegar a Presidência da República e por conseqüência conseguindo neste período da rede de comunicação seu silêncio e cumplicidade.
O que diz a Cemig
A nota divulgada pela assessoria de imprensa da estatal mineira em resposta à consulta feita pela reportagem do Novo Jornal é a seguinte:
“Para a Cemig participar de leilões, consórcios ou compra de ativos (como é o caso da compra da Light), a empresa não precisa de nenhuma lei para isso, mas sim a autorização do Conselho de Administração da empresa. A proposta é enviada pela Diretoria ao Conselho de Administração, que é presidido pelo Brumer, que autoriza ou não a compra”.
É verdade que para comprar ativos a diretoria da empresa necessitaria apenas de autorização do Conselho de Administração, do qual fazem parte o pai do governador e o sogro de sua irmã.
Porém, a reunião do Conselho de Administração de 24/03/2006 autorizou apenas a compra das ações da Light pela RME – Rio Minas Energia Participações S/A, CNPJ 07.925.628/0001-47. O que se discute é a falta da autorização legislativa, exigência constitucional para criação da referida empresa, que tem como sócio a JLA Participações S/A, constituída exclusivamente para participar da RME-Rio Minas Energia Participações S/A, conforme relatório da secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, de propriedade do Liberal International Limited, sociedade constituída em Bahamas e a Pactual Energia, que é uma sociedade controlada por um fundo de investimento estrangeiro denominado Pactual Latin América Power Fund Limited, gerido pelo Pactual Banking Limited, instituição financeira com sede em Cayman, assim como Bahamas, paraíso fiscal e sede do maior centro de lavagem de dinheiro do mundo.
Para o mercado financeiro americano a empresa Liberal International Limited, que possui diversos imóveis e empreendimentos em seu nome, em inúmeros locais do país, seria administrada pelo secretário de Governo, Danilo de Castro, que, em última análise, estaria representando o governador Aécio Neves.
Na verdade, a relação entre os dois confunde-se com a relação entre PC Farias e Fernando Collor de Mello. Um jornalista do Washington Post publicou, no final do ano passado, uma nota a respeito, comentando este fato.
Na verdade, o referido jornalista jogou a isca para que Aécio Neves o interpelasse, permitindo que fosse argüido “exception of the truth”, único dispositivo aceito nos paraísos fiscais como motivo para quebra de sigilo de contas e operações financeiras ali realizadas.
Se esta versão corresponde à verdade, não podemos afirmar. Porém, nem a Cemig e os demais sócios da RME-Rio Minas Energia Participações S/A informaram quem era o verdadeiro proprietário do Liberal International Limited.
Para esclarecer esta dúvida, bastaria que a Cemig ou a Light trouxesse a público estas informações, que independente da vontade das empresas, em breve, serão divulgados pelo relatório da Comissão Especial do Senado Federal americano, criado para apurar a lavagem de dinheiro internacional.
Novo Jornal já tinha a autorização para disponibilizar o link contendo o relatório parcial que comprovasse a versão do mercado financeiro americano, quando fomos comunicados que a direção do Senado americano decidiu que o mesmo deveria ser retirado do site da comissão. O relatório final deverá ser concluído até julho deste ano.
E mais. A decisão do Conselho de Administração da Cemig foi para compra de 88,84% das ações da EDF International, que na Light correspondiam a 79,57% de suas ações. Ao contrário, apenas 75,40% vieram para a RME – Rio Minas Energia Participações S/A. A diferença de 4,17% representam as ações que ficaram em poder de EDFI para serem negociadas em Bolsa, conforme citado no início da reportagem, para pagamento do restante do débito da Rede Globo de Televisão.
Na verdade, montou-se um projeto de engenharia mobiliária para apropriar-se do dinheiro público, permanecendo a Cemig como minoritária. Não tendo qualquer poder de decisão. Tanto é verdade que se repete o ocorrido quando a própria Cemig não admitiu no governo Itamar Franco qualquer decisão da minoritária Southern Eletric Brasil Participações Ltda.
A fraude praticada é tão gigantesca que no comunicado feito por Andrade Gutierrez à Bolsa de Valores em 29/03/2006 dizia que a RME Minas Energia Participações S/A estava em constituição, como poderia o Conselho de Administração da Cemig ter decidido que a empresa participaria da RME Minas Energia Participações S/A se naquela data a mesma não existia constando em seu CNPJ como data de abertura 28/03/2006.
Fica difícil para a empresa RME-Rio Minas Energia Participações S/A explicar como comprou 79, 57% e só recebeu 75, 40%. Isto em uma operação de Bolsa no valor de US$ 2 bilhões.
Pedido de auditoria
A Comissão de Meio Ambiente e Recursos Naturais da Assembléia Legislativa de Minas Gerais aprovou no dia 20 de dezembro de 2006 requerimento de autoria do deputado estadual Laudelino Augusto (PT) pedindo que seja encaminhado ofício ao Tribunal de Contas de Minas Gerais (TCMG) para a realização de auditoria nas contas da Cemig.
O deputado solicitou o exame da arrecadação de receitas públicas e execução de despesas, de outros atos de gestão de repercussão contábil, financeira, orçamentária, operacional e patrimonial, praticados pelos seus administradores nos últimos cinco anos, considerando a legalidade, economicidade, eficiência e demais princípios constitucionais.
Comentário: como dissemos na edição anterior, uma voz firme, objetiva, sem distorcer a realidade, como vem sendo feito de forma generalizada — as exceções são exceções — na grande mídia, surgiu em Minas, o Novo Jornal. Finalmente, o governo Aécio vai sendo desmascarado. Além do escândalo dos investimentos feitos na Light, realizados à revelia da Assembléia Legislativa e, portanto, da sociedade mineira, Aécio tem explicar publicamente o que está feito com a Copasa. Outro escândalo que envergonha a imprensa mineira, completamente omissa em sua função social de noticiar os fatos que interessam ao povo mineiro. Ninguém da propalada grande mídia mineira dá um pio sobre esses assuntos. Será por quê? Alguma justificativa há.
Enquanto o tucano Aécio faz das suas aqui em Minas, o outro, o tucano paulista José Serra, também esconde a verdade — um buraco do tamanho de uma cratera — sobre as irregularidades do Metrô paulistano. Isso tudo, senhores, com a conivência, com o caradurismo da mídia nacional, Globo, Folha de S. Paulo, Estado de São Paulo e companhia limitada e ilimitada. Blindaram o homem com a maior cara-de-pau. Estão fazendo com Serra agora, como fizeram antes com ele mesmo na eleição pra governador, como fizeram com Alkmin durante todo o processo eleitoral passado. Essa imprensa que se diz imparcial e isenta (é preciso saber de quê e de quem), se transformou em mais um partido que defende os interesses das classes dominantes brasileiras. E como não deu pra emplacar o Alckmin em 2006 já trabalham para emplacar o Serra e o Aécio em 2010. Essa é a lógica com que trabalham.
Publicado em: 23/02/2007 - Boletim Eletrônico 178 - Ano VI - Câmara Municipal de Belo Horizonte
Governador de Minas, Aécio Neves, paga US$ 269 milhões de dívidas da Rede Globo de Televisão na compra da Light
enviada por Arlindo



25/02/2007 11:19
O que os jornalões não noticiam.

Dívida externa européia

DISCURSO DO EMBAIXADOR

Um discurso feito pelo embaixador Guaicaípuro Cuatemoc, de ascendência indígena, defendendo o pagamento da dívida externa do seu país, o México, embasbacou os principais chefes de Estado da Comunidade Européia. A conferência dos chefes de Estado da União Européia, Mercosul e Caribe, em maio de 2002 em Madri, viveu um momento revelador e surpreendente: os chefes de Estado europeus ouviram perplexos e calados um discurso irônico, cáustico e de exatidão histórica que lhes fez Guaicaípuro Cuatemoc.

Eis o discurso:

"Aqui estou eu, descendente dos que povoaram a América há 40 mil anos, para encontrar os que a "descobriram" só há 500 anos. O irmão europeu da aduana me pediu um papel escrito, um visto, para poder descobrir os que me descobriram. O irmão financista europeu me pede o pagamento - ao meu país- ,com juros, de uma dívida contraída por Judas, a quem nunca autorizei que me vendesse. Outro irmão europeu me explica que toda dívida se paga com juros, mesmo que para isso sejam vendidos seres humanos e países inteiros sem pedir-lhes consentimento. Eu também posso reclamar pagamento e juros.

Consta no "Arquivo da Cia. das Índias Ocidentais" que, somente entre os anos 1503 e 1660, chegaram a São Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América.

Teria sido isso um saque? Não acredito, porque seria pensar que os irmãos cristãos faltaram ao sétimo mandamento! Teria sido espoliação? Guarda-me Tanatzin de me convencer que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue do irmão.

Teria sido genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomeu de Las Casas ou Arturo Uslar Pietri, que afirmam que a arrancada do capitalismo e a atual civilização européia se devem à inundação de metais preciosos tirados das Américas.

Não, esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata foram o primeiro de tantos empréstimos amigáveis da América destinados ao desenvolvimento da Europa. O contrário disso seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito a exigir não apenas a devolução, mas indenização por perdas e danos.

Prefiro pensar na hipótese menos ofensiva.

Tão fabulosa exportação de capitais não foi mais do que o início de um plano "MARSHALL MONTEZUMA", para garantir a reconstrução da Europa arruinada por suas deploráveis guerras contra os muçulmanos, criadores da álgebra, da poligamia, e de outras conquistas da civilização.

Para celebrar o quinto centenário desse empréstimo, podemos perguntar: Os irmãos europeus fizeram uso racional responsável ou pelo menos produtivo desses fundos?

Não. No aspecto estratégico, dilapidaram nas batalhas de Lepanto, em navios invencíveis, em terceiros reichs e várias formas de extermínio mútuo. No aspecto financeiro, foram incapazes, depois de uma moratória de 500 anos, tanto de amortizar o capital e seus juros quanto independerem das rendas líquidas, das matérias-primas e da energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo.

Este quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman, segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar e nos obriga a reclamar-lhes, para seu próprio bem, o pagamento do capital e dos juros que, tão generosamente, temos demorado todos estes séculos em cobrar. Ao dizer isto, esclarecemos que não nos rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus, as mesmas vis e sanguinárias taxas de 20% e até 30% de juros ao ano que os irmãos europeus cobram dos povos do Terceiro Mundo.

Nos limitaremos a exigir a devolução dos metais preciosos, acrescida de um módico juro de 10%, acumulado apenas durante os últimos 300 anos, com 200 anos de graça. Sobre esta base e aplicando a fórmula européia de juros compostos, informamos aos descobridores que eles nos devem 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, ambas as cifras elevadas à potência de 300, isso quer dizer um número para cuja expressão total será necessário expandir o planeta Terra.

Muito peso em ouro e prata... quanto pesariam se calculados em sangue?

Admitir que a Europa, em meio milênio, não conseguiu gerar riquezas suficientes para esses módicos juros , seria como admitir seu absoluto fracasso financeiro e a demência e irracionalidade dos conceitos capitalistas.

Tais questões metafísicas, desde já, não inquietam a nós, índios da América. Porém, exigimos assinatura de uma carta de intenções que enquadre os povos devedores do Velho Continente e que os obriguem a cumpri-la, sob pena de uma privatização ou conversão da Europa, de forma que lhes permitam entregar suas terras, como primeira prestação de dívida histórica..."

Quando terminou seu discurso diante dos chefes de Estado da Comunidade Européia, o Cacique Guaicaípuro Guatemoc não sabia que estava expondo uma tese de Direito Internacional para determinar a Verdadeira Dívida Externa. Agora resta que algum Governo Latino-Americano tenha a dignidade e coragem suficiente para impor seus direitos perante os Tribunais Internacionais. Os europeus teriam que pagar por toda a espoliação que aplicaram aos povos que aqui habitavam, com juros civilizados.

Publicado no Jornal do Comércio - Recife/PE.



Dr Caio Salem

enviada por Arlindo



27/02/2006 22:58

Revendo “2001 – Uma Odisséia no Espaço”


Peguei para assistir nesse Carnaval o clássico de Stanley Kubrick cujo roteiro, escrito a quatro mãos por ele e Arthur C. Clarke, originou o livro homônimo desse último, o qual serviu de complemento explicativo para as cenas finais do filme que, à época do lançamento, causaram polêmica e interpretações as mais diversas. O próprio Clarke chegou a dizer que “Se alguém entender "2001” completamente, nós falhamos. Queríamos levantar mais perguntas do que as respostas que sugerimos”.

Mas quero falar aqui principalmente do aspecto cinematográfico. Em 1968, sem os recursos da computação gráfica, lançando mão de maquetes e de sua imaginação como fotógrafo e diretor, Kubrick levou o cinema a um dos píncaros da arte completa. Basta lembrar que, em 1968 o homem ainda não tinha pousado na Lua e que os computadores mais modernos eram o Univac 9000 e o IBM /360.

Pensando no Cinema como uma atividade em que a tecnologia está cada vez mais prejudicando a arte, quando os produtores e os diretores se preocupam mais com os efeitos do que com o conteúdo que eles querem passar, comparei Kubrick a Richard Wagner. Wagner dizia que a ópera deveria ser uma síntese de todas as artes, onde o teatro, a música, a pintura, a escultura, a poesia, a dança se integrariam harmoniosamente para levar o espectador às alturas do Olimpo. Creio que Kubrick, em ”2001” fez uma ópera que Wagner assinaria.

A fotografia é levada aos extremos da competência, tanto nas tomadas iniciais da “Aurora do Homem”, quanto nas cenas mais prosaicas dentro da nave Discovery ou nos efeitos alucinógenos do “Portal das Estrelas”. O tempo todo o que vemos é o uso das técnicas fotográficas sendo exploradas em toda a sua potencialidade. Kubrick, ele mesmo, tomou a si a responsabilidade do projeto de efeitos especiais e conseguiu da MGM uma equipe de mais de sessenta técnicos em fotografia e efeitos especiais. Filmado em Panaviison® no formato 2.2:1, na telona faz com que a platéia se entregue inteiramente.

A música. Que achado! Johann Strauss com seu “Danúbio Azul” pontuando a dança do ônibus espacial ao chegar na estação internacional. Por sinal, uma tomada lindíssima é quando o ônibus sincroniza seu giro com o da estação para entrar no espaço-porto. O uso da música concretista de György Ligeti nas cenas finais. Mas o melhor mesmo, que serviu inclusive para tornar Richard Strauss conhecido do grande público, foi o uso de “Also spracht Zarathustra” tanto no início quanto no final do filme. A referência ao pensamento de Nietzsche através da música de Strauss, no alvorecer da humanidade e quando da transformação do astronauta no “filho das estrelas” é algo inexprimível com palavras. É puro sentimento!

Enfim, “2001 – Uma Odisséia no Espaço” é como livro-de-cabeceira: você precisa tê-lo à mão e, de vez em quando, assistir de novo. É sempre um novo filme.

enviada por Arlindo



31/12/2005 20:10
Carta ao Presidente Bush de Mia Couto
(27-3-2003)

A legitimidade da guerra no Iraque numa carta de Mia Couto dirigida ao Presidente George W. Bush.

Senhor Presidente:

Sou um escritor de uma nação pobre, um país que já Mia Couto, Moçambiqueesteve na vossa lista negra. Milhões de moçambicanos desconheciam que mal vos tínhamos feito. Éramos pequenos e pobres: que ameaça poderíamos constituir ? A nossa arma de destruição massiva estava, afinal, virada contra nós: era a fome e a miséria...

Alguns de nós estranharam o critério que levava a que o nosso nome fosse manchado enquanto outras nações beneficiavam da vossa simpatia. Por exemplo, o nosso vizinho - a África do Sul do "apartheid" - violava de forma flagrante os direitos humanos.

Durante décadas fomos vítimas da agressão desse regime. Mas o regime do "apartheid" mereceu da vossa parte uma atitude mais branda: o chamado "envolvimento positivo". O ANC esteve também na lista negra como uma "organização terrorista!". Estranho critério que levaria a que, anos mais tarde, os taliban e o próprio Bin Laden fossem chamadas de "freedom fighters" por estrategas norte-americanos.

Pois eu, pobre escritor de um pobre país, tive um sonho. Como Martin Luther King certa vez sonhou que a América era uma nação de todos os americanos. Pois sonhei que eu era não um homem mas um país. Sim, um país que não conseguia dormir. Porque vivia sobressaltado por terríveis factos. E esse temor fez com que proclamasse uma exigência. Uma exigência que tinha a ver consigo, Caro Presidente. E eu exigia que os Estados Unidos da América procedessem à eliminação do seu armamento de destruição massiva.

Por razão desses terríveis perigos eu exigia mais: que inspectores das Nações Unidas fossem enviados para o vosso país. Que terríveis perigos me alertavam? Que receios o vosso país me inspiravam? Não eram produtos de sonho, infelizmente. Eram factos que alimentavam a minha desconfiança. A lista é tão grande que escolherei apenas alguns:

- Os Estados Unidos foram a única nação do mundo que lançou bombas atómicas sobre outras nações;
- O seu país foi a única nação a ser condenada por "uso ilegítimo da força" pelo Tribunal Internacional de Justiça;
- Forças americanas treinaram e armaram fundamentalistas islâmicos mais extremistas (incluindo o terrorista Bin Laden) a pretexto de derrubarem os invasores russos no Afeganistão;
- O regime de Saddam Hussein foi apoiado pelos EUA enquanto praticava as piores atrocidades contra os iraquianos (incluindo o gaseamento dos curdos em 1998);
- Como tantos outros dirigentes legítimos, o africano Patrice Lumumba foi assassinado com ajuda da CIA. Depois de preso e torturado e baleado na cabeça o seu corpo foi dissolvido em ácido clorídrico;
- Como tantos outros fantoches, Mobutu Seseseko foi por vossos agentes conduzido ao poder e concedeu facilidades especiais à espionagem americana: o quartel-general da CIA no Zaire tornou-se o maior em África. A ditadura brutal deste zairense não mereceu nenhum reparo dos EUA até que ele deixou de ser conveniente, em 1992;
- A invasão de Timor Leste pelos militares indonésios mereceu o apoio dos EUA. Quando as atrocidades foram conhecidas, a resposta da Administração Clinton foi "o assunto é da responsabilidade do governo indonésio e não queremos retirar-lhe essa responsabilidade";
- O vosso país albergou criminosos como Emmanuel Constant um dos líderes mais sanguinários do Taiti cujas forças para-militares massacraram milhares de inocentes. Constant foi julgado à revelia e as novas autoridades solicitaram a sua extradição. O governo americano recusou o pedido;
- Em Agosto de 1998, a força aérea dos EUA bombardeou no Sudão uma fábrica de medicamentos, designada Al-Shifa. Um engano? Não, tratava-se de uma retaliação dos atentados bombistas de Nairobi e Dar-es-Saalam;
- Em Dezembro de 1987, os Estados Unidos foi o único país (junto com Israel) a votar contra uma moção de condenação ao terrorismo internacional. Mesmo assim, a moção foi aprovada pelo voto de cento e cinquenta e três países;
- Em 1953, a CIA ajudou a preparar o golpe de Estado contra o Irão na sequência do qual milhares de comunistas do Tudeh foram massacrados. A lista de golpes preparados pela CIA é bem longa.
- Desde a Segunda Guerra Mundial, os EUA bombardearam: a China (1945-46), a Coreia e a China (1950-53), a Guatemala (1954), a Indonésia (1958), Cuba (1959-1961), a Guatemala (1960), o Congo (1964), o Peru (1965), o Laos (1961-1973), o Vietename (1961-1973), o Camboja (1969-1970), a Guatemala (1967-1973), Granada (1983), Líbano (1983-1984), a Líbia (1986), Salvador (1980), a Nicarágua (1980), o Irão(1987), o Panamá (1989), o Iraque (1990-2001), o Kuwait (1991), a Somália (1993), a Bósnia (1994-95), o Sudão (1998), o Afeganistão (1998), a Jugoslávia (1999).
- Acções de terrorismo biológico e químico foram postas em prática pelos EUA: o agente laranja e os desfolhantes no Vietname, o vírus da peste contra Cuba que durante anos devastou a produção suína naquele país.
- O Wall Street Journal publicou um relatório que anunciava que 500 000 crianças vietnamitas nasceram deformadas em consequência da guerra química das forças norte-americanas.

Acordei do pesadelo do sono para o pesadelo da realidade. A guerra que o Senhor Presidente teimou em iniciar poderá libertar-nos de um ditador. Mas ficaremos todos mais pobres. Enfrentaremos maiores dificuldades nas nossas já precárias economias e teremos menos esperança num futuro governado pela razão e pela moral. Teremos menos fé na força reguladora das Nações Unidas e das convenções do direito internacional. Estaremos, enfim, mais sós e mais desamparados.

Senhor Presidente:

O Iraque não é Saddam. São 22 milhões de mães e filhos, e de homens que trabalham e sonham como fazem os comuns norte-americanos. Preocupamo-nos com os males do regime de Saddam Hussein que são reais. Mas esquece-se os horrores da primeira guerra do Golfo em que perderam a vida mais de 150 000 homens...

O que está destruindo massivamente os iraquianos não são as armas de Saddam. São as sanções que conduziram a uma situação humanitária tão grave que dois coordenadores para ajuda das Nações Unidas (Dennis Halliday e Hans Von Sponeck) pediram a demissão em protesto contra essas mesmas sanções. Explicando a razão da sua renúncia, Halliday escreveu: "Estamos destruindo toda uma sociedade. É tão simples e terrível como isso. E isso é ilegal e imoral". Esse sistema de sanções já levou à morte meio milhão de crianças iraquianas.

Mas a guerra contra o Iraque não está para começar. Já começou há muito tempo. Nas zonas de restrição aérea a Norte e Sul do Iraque acontecem continuamente bombardeamentos desde há 12 anos Acredita-se que 500 iraquianos foram mortos desde 1999. O bombardeamento incluiu o uso massivo de urânio empobrecido (300 toneladas, ou seja 30 vezes mais do que o usado no Kosovo).

Livrar-nos-emos de Saddam. Mas continuaremos prisioneiros da lógica da guerra e da arrogância. Não quero que os meus filhos (nem os seus) vivam dominados pelo fantasma do medo. E que pensem que, para viverem tranquilos, precisam de construir uma fortaleza. E que só estarão seguros quando se tiver que gastar fortunas em armas.

Como o seu país que despende 270 000 000 000 000 dólares (duzentos e setenta biliões de dólares) por ano para manter o arsenal de guerra. O senhor bem sabe o que essa soma poderia ajudar a mudar o destino miserável de milhões de seres. O bispo americano Monsenhor Robert Bowan escreveu- lhe no final do ano passado uma carta intitulada "Porque é que o mundo odeia os EUA?"

O bispo da Igreja Católica da Florida é um ex--combatente na guerra do Vietname. Ele sabe o que é a guerra e escreveu: "O senhor reclama que os EUA são alvo do terrorismo porque defendemos a democracia, a liberdade e os direitos humanos. Que absurdo, Sr. Presidente ! Somos alvos dos terroristas porque, na maior parte do mundo, o nosso governo defendeu a ditadura, a escravidão e a exploração humana...

Somos alvos dos terroristas porque somos odiados. E somos odiados porque o nosso governo fez coisas odiosas. Em quantos países agentes do nosso governo depuseram líderes popularmente eleitos substituindo-os por ditadores militares, fantoches desejosos de vender o seu próprio povo às corporações norte-americanas multinacionais ? E o bispo conclui: O povo do Canadá desfruta de democracia, de liberdade e de direitos humanos, assim como o povo da Noruega e da Suécia.

Alguma vez o senhor ouviu falar de ataques a embaixadas canadianas, norueguesas ou suecas? Nós somos odiados não porque praticamos a democracia, a liberdade ou os direitos humanos. Somos odiados porque o nosso governo nega essas coisas aos povos dos países do Terceiro Mundo, cujos recursos são cobiçados pelas nossas multinacionais."

Senhor Presidente:

Sua Excelência parece não necessitar que uma instituição internacional legitime o seu direito de intervenção militar. Ao menos que possamos nós encontrar moral e verdade na sua argumentação. Eu e mais milhões de cidadãos não ficamos convencidos quando o vimos justificar a guerra. Nós preferíamos vê-lo assinar a Convenção de Quioto para conter o efeito de estufa. Preferíamos tê-lo visto em Durban na Conferência Internacional contra o Racismo. Não se preocupe, senhor Presidente.

A nós, nações pequenas deste mundo, não nos passa pela cabeça exigir a vossa demissão por causa desse apoio que as vossas sucessivas administrações concederam apoio a não menos sucessivos ditadores. A maior ameaça que pesa sobre a América não são armamentos de outros. É o universo de mentira que se criou em redor dos vossos cidadãos.

O perigo não é o regime de Saddam, nem nenhum outro regime. Mas o sentimento de superioridade que parece animar o seu governo. O seu inimigo principal não está fora. Está dentro dos EUA. Essa guerra só pode ser vencida pelos próprios americanos. Eu gostaria de poder festejar o derrube de Saddam Hussein. E festejar com todos os americanos. Mas sem hipocrisia, sem argumentação e consumo de diminuídos mentais. Porque nós, caro Presidente Bush, nós, os povos dos países pequenos, temos uma arma de construção massiva: a capacidade de pensar.

Notas do editor:
1. Respeitada a ortografia de Moçambique
2. Fonte: Moçambique Editora
enviada por Arlindo



05/12/2005 23:30

Um verdadeiro filósofo

Um estudante de filosofia



Gabriel Perissé



Conheci recentemente um verdadeiro estudante de filosofia. Chama-se
Osmair Camargo Cândido. Profissão: coveiro no Cemitério do Araçá (zona
oeste de São Paulo). Aluno da Universidade Mackenzie (bolsista),
instituição em que já trabalhou como faxineiro. Aprendeu sozinho a ler
em inglês e alemão. Freqüentador assíduo da biblioteca. No dia em que o
encontrei, estava lendo um estudo sobre Hegel.



Durante 20 anos, entre mais de 400 mil túmulos, aprendeu o que é a
vida. Escreve uma literatura que não sei qualificar. Carioca da gema,
olhar em contínua admiração, mora em São Paulo porque precisa
sobreviver. Mas viver é outra história, viver é ler, pensar e escrever.



Bisneto de escravo (e a bisavó era indígena), terminará a sua graduação
no ano que vem. Pretende estudar a obra de Sören Kierkegaard em
instituição dinamarquesa. Professor voluntário (de redação) no Capão
Redondo, bairro da zona sul, argumenta: “do que têm medo muitos que se
dizem ‘solidários’ e ‘cristãos’, mas não fazem o que eu, que creio
pouco, faço por consciência do dever?” E continua, enquanto subimos uma
ladeira em direção à estação do Metrô: “A liberdade está em fazer
aquilo que se deve fazer.” Ele é kantiano num Brasil tão pouco
iluminista.



O conhecimento lhe traz a felicidade dolorida que ambientes rarefeitos
não experimentam mais. “Sempre soube que a filosofia entraria na minha
vida.” Estamos dialogando como nos tempos em que se acreditava na busca
da sabedoria.



E ele me pergunta: “Você aceitaria ter todo o dinheiro do mundo e
apenas mais três dias de vida?” Minha resposta é rápida. Nego o
dinheiro, e me agarro à vida. Osmair denuncia meu egoísmo. Se ele,
Osmair, tivesse no bolso todo o dinheiro do mundo, o distribuiria com
justiça entre as pessoas e seria o homem mais feliz da terra por saber
exatamente quando chegaria a Inevitável. Quem diria, ele também é
estóico.



“A verdade atrai... e a mentira possui.” Estou lendo Osmair ou
Nietzsche? Tomando café num barzinho repleto de estudantes
universitários (gritos... gargalhadas...), o pensador observa. Com
tristeza e ironia, murmura: “não vejo nenhum livro entre os copos...”



Não consegui dormir na noite posterior à conversa com Osmair. Fiquei
chocado por encontrar um verdadeiro estudante de filosofia. Seu
realismo, seu amor às idéias, sua sinceridade total me fizeram pensar.



Pensar em carne viva tira o sono de qualquer um.



Gabriel Perissé é autor do livro recém-lançado Elogio da Leitura, pela Editora Manole.



Extraído de:

Correio da Cidadania

http://www.correiocidadania.com.br/ed476/perisse.htm
enviada por Arlindo



15/10/2005 10:53
Almanaque de Mauro Santayana:
A espessura da vida


Haveria um limite ao desenvolvimento tecnológico? Provavelmente, sim; provavelmente, não. Desde que os homens começaram a medir as coisas, deles têm sido a ilusão de que são delas senhores absolutos. Alguns pensadores associam a lógica à presunção de domínio, e medir é ato lógico de posse. Quem conhece alguma coisa se sente dela senhor. A ciência, no fundo, é a medição da matéria e dos fenômenos, e a tecnologia, a combinação de semelhanças e diferenças, para a obtenção de efeitos determinados.

Estamos agora assustados com as alterações na biosfera. Raramente paramos para refletir que a vida, tal como a conhecemos, só existe em tênue película que cobre a Terra. Para entender e administrar a vida, nessa película tão fina, existe outra película, igualmente débil: a da inteligência, que habita as capas cerebrais. Nos últimos três séculos, houve veloz intervenção da inteligência na biosfera. Fenômenos como a força motriz do vapor (descoberta de Aristarco de Samos) e o eletromagnetismo (elétron é âmbar em grego, e o âmbar, excitado pelo calor da fricção, tem qualidades elétricas) eram conhecidos desde a Antigüidade, mas só a descoberta de instrumentos mais precisos de medição, e do "método" científico, com Descartes e seus contemporâneos, abriu caminho para a desabalada carreira rumo à insensatez de nosso tempo.

Há apenas 146 anos o ferroviário Edwin Drake perfurou o primeiro poço de petróleo no território americano, exacerbando a velocidade da revolução industrial, iniciada no século anterior. O uso do petróleo nos motores a explosão possibilitou o deslocamento rápido e sempre mais pesado de pessoas e mercadorias. Sem o refino do petróleo em escala industrial, a partir do poço de Tutsville - com apenas 21 metros de profundidade -, Santos Dumont não teria voado, há 99 anos, com um aparelho mais pesado do que o ar, e, em conseqüência indesejada pelo brasileiro, o Enola Gay, 40 anos depois, despejou sobre Hiroxima e Nagasaki seus ovos apocalípticos.

Drake foi inventivo, mas não era capitalista. Pensava continuar explorando as propriedades medicinais do petróleo, como era usual na época. Não patenteou o método de perfuração e extração. Mais esperto foi John D. Rockefeller, que, três anos depois, se associou a Samuel Andrews, inventor de uma forma barata de refinar o óleo, para criar a Standard Oil. Ninguém acreditava nas escavações de Drake, antes de achar o petróleo, e seus contemporâneos as ridicularizavam, como sendo "a doidice de Drake". Ele morreu pobre, e só não passou fome porque os legisladores da Pensilvânia lhe concederam uma pensão vitalícia.

O que são 146 anos na História? Praticamente nada. Nesse século e meio os homens consumiram mais do que em todo o passado. Não têm sido consumidores todos os homens do mundo. Um habitante do Hemisfério Norte, de modo geral, consome, em média, dezenas de vezes mais do que o habitante do Sul. Há 33 anos, em Estocolmo, Indira Gandhi afirmava que um americano comum gastava mais energia do que 140 indianos.

Sempre que se fala em depredação da natureza, há os que culpam a fertilidade dos pobres e, com piedosa hipocrisia, aconselham a castração dos miseráveis. De vez em quando, como ocorreu recentemente nos Estados Unidos, e na Alemanha há mais tempo, recomendam o aborto dos "incapazes". Nos países ricos e que começam a ter declínio demográfico, estimula-se o nascimento, até mesmo com subsídios. Enfim: os ricos querem multiplicar-se e excluir os pobres do usufruto da natureza. É outro aleijão da lógica: sendo a riqueza um conceito relativo, só haverá ricos se houver pobres. Para reduzir o número de pobres e de ricos, há um meio: diminuir as desigualdades e dissolvê-las em uma classe média que atinja quase todo o universo social.

Os Estados Unidos, que começaram essa corrida alucinada com as aventuras de Drake e Rockefeller, são os maiores destruidores da natureza, mas não aceitam reduzir seu consumo de energia, a fim de conter, entre outros, o "efeito estufa" e as emissões de gases que destroem o ozônio da atmosfera. Ainda agora se informa que imenso buraco na camada de ozônio paira sobre o Rio Grande do Sul. Continuam sem aderir ao Protocolo de Kyoto e sem adotar medidas internas para amenizar o futuro do homem.

Os americanos, com sua excitação pelo poder que disputam com a natureza, fazem lembrar os lobos do Ártico, que algumas tribos esquimós caçam de forma astuta. Os caçadores quebram lascas de gelo, de quinas agudas, e as cobrem com gordura de foca. Os lobos, ao lamber a gordura, cortam a língua e sentem o gosto do próprio sangue, que os excita sempre mais. Assim, morrem recheados do próprio sangue - e os caçadores colhem as peças sem perigo. A natureza está destinada a ganhar a partida.

É provável que os acidentes climáticos dos últimos meses - maremotos, furacões, terremotos, cheias e secas surpreendentes, como a da Amazônia - sejam espontâneos e não tenham sido causados pela ação humana - mas disso não estamos certos. Muitos acreditam que o deslocamento do eixo da Terra, provocado pela fissura tectônica de dezembro do ano passado, no Oceano Índico, venha causando os transtornos sucessivos. Já se fala em ciclones que atravessam o Atlântico e ameaçam a Península Ibérica. É provável que esse ligeiro estremecimento haja causado os transtornos atuais, o que acentua a fragilidade da biosfera, e recomenda tratá-la ainda com mais cuidado. A grande inteligência do homem, capaz de construir os fantásticos engenhos modernos, e de penetrar na intimidade dos átomos e dos genes, é convocada a encontrar os meios para manter a vida no planeta. Mas a inteligência que serve ao capitalismo não é a mesma que serve ao humanismo. A inteligência do humanismo cuida da política, mas os políticos, a cada dia mais, desprezam o conselho dos humanistas, e os substituem pela habilidade dos marqueteiros. E os marqueteiros, como vanguarda do neoliberalismo, geralmente não se preocupam com essas coisas não rentáveis. Ao contrário. Muitos deles têm servido, como o Duda Mendonça e o Marcos Valério, para distribuir a ração do suborno aos políticos, a fim de que os políticos cada vez mais sirvam ao modelo imposto pelo capital financeiro mundial.

Estamos chegando a uma encruzilhada. É consenso entre os grandes biólogos que a natureza não tem compromisso com o homem. Seu compromisso é com a vida. Se o homem ameaça a vida, a natureza cuidará de dispensá-lo, para que se dê continuidade a essa fantástica aventura da matéria, iniciada por desígnio de Deus ou pelo imperscrutável acaso. Assim, talvez outro ramo dos macacos venha a assumir o nosso lugar, com o sentido de solidariedade para com a espécie que perdemos, e reconstrua o mundo.

Talvez, não.

(Extraído de Jornal do Brasil, sábado, 15 de outubro de 2005)
enviada por Arlindo



15/09/2005 11:59

"Burieviestnik"

A Canção do Albatroz

Em 1901, Máximo Gorki escreveu este belo poema sentindo o tempo que vivia e do qual se avizinhava poderosa tempestade revolucionária na Rússia heróica de seu tempo. A palavra albatroz (burieviestnik) em russo pode ser traduzida como mensageiro (viéstnik) da tempestade (buria), por ser ele o único animal que sai alegremente a voar e sente-se perfeitamente à vontade em meio a qualquer tormenta. A mensagem é clara: no meio do caos, não devemos temer as tempestades, mas voar com elas e contribuir para que elas transformem efetivamente o mundo!



"Sobre a superfície cinzenta do mar,
O vento reúne
Pesadas nuvens.
Semelhante a um raio negro,
Entre as nuvens e o mar,
Paira orgulhoso o albatroz,
Mensageiro da tempestade.
E ora são as asas tocando as ondas,
Ora é uma flecha rasgando as nuvens,
Ele grita.
E as nuvens escutam a alegria
No ousado grito do pássaro.
Nesse grito - sede de tempestade!
Nesse grito - as nuvens escutam a fúria,
A chama da paixão,
A confiança na Vitória.
As gaivotas gemem diante da tempestade,
Gemem e lançam-se ao mar,
Para lá no fundo esconderem
O pavor da tempestade.
E os mergulhões também gemem.
A eles, mergulhões,
É inacessível a delícia da luta pela vida:
O barulho do trovão os amedronta...
O tolo pingüim, timidamente
Esconde seu corpo obeso entre as rochas...
Apenas o orgulhoso albatroz voa,
Ousado e livre sobre a espuma cinzenta do mar.
Tonitroa o trovão.
As ondas gemem na espuma da fúria.
E discutem com o vento.
Eis que o vento
Abraça uma porção de ondas
Com força e lança-as
Com maldade selvagem nas rochas,
Espalhando-as como a poeira,
Respingando uma noite de esmeraldas.
O albatroz paira a gritar
Como um raio negro,
Rompendo as nuvens como uma flecha,
Levantando espuma com suas asas.
Ei-lo voando rápido como um demônio;
Orgulhoso e negro demônio da tempestade;
Ri das nuvens, soluça de alegria!
Ele - sensível demônio -
Há muito vem escutando
Cansaço na fúria do trovão.
Tem certeza de que as nuvens não escondem,
Não, não escondem...
Uiva o vento... Ribomba o trovão...
Sobre o abismo do mar,
Um monte de nuvens pesadas
Brilham como centelhas.
O mar pega as flechas de relâmpagos
E as apaga em sua voragem.
Parecem cobras de fogo.
Os reflexos desses raios,
Rastejando sobre o mar e desaparecendo.
_ Tempestade!
Breve rebentará a tempestade!
Esse corajoso albatroz
Paira altivo entre os raios
E sobre o mar furiosamente urrando
Então grita o profeta da Vitória:
QUE MAIS FORTE ARREBENTE A TEMPESTADE!"
enviada por Arlindo






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